Uma das descobertas mais perturbadoras e fascinantes da investigação recente em saúde oral é a possível ligação entre a saúde das gengivas e a saúde do cérebro. A ideia de que uma infecção crónica na boca possa contribuir para a neurodegeneração que caracteriza a doença de Alzheimer seria impensável há 20 anos. Hoje, é o tema de dezenas de estudos publicados nas revistas científicas mais rigorosas do mundo.
O estado da evidência em 2025
Uma scoping review publicada em Frontiers in Aging Neuroscience (Zhang et al., 2025, DOI: 10.3389/fnagi.2025.1588008), que analisou 52 estudos publicados entre 2004 e 2025 — incluindo estudos clínicos, modelos animais e estudos in vitro — chegou a conclusões claras:
A evidência sugere que a doença periodontal aumenta o risco de Alzheimer e acelera o declínio cognitivo. Os mecanismos potenciais incluem agregação de proteínas beta-amilóide (Aβ) e tau, neuroinflamação desencadeada pela infecção por Porphyromonas gingivalis, e disregulação do eixo intestino-cérebro.
Esta revisão é a mais abrangente e recente disponível, e o seu peso metodológico é significativo.
O achado que mudou a investigação: P. gingivalis no cérebro
Em 2019, um estudo seminal publicado na Science Advances (Dominy et al., DOI: 10.1126/sciadv.aau3333) identificou ADN e proteínas de Porphyromonas gingivalis — a principal bactéria patogénica da periodontite — no tecido cerebral post-mortem e no líquido cefalorraquidiano de doentes com Alzheimer.
As gingipaínas — enzimas proteolíticas características desta bactéria — foram encontradas em concentrações que se correlacionaram positivamente com os marcadores neuropatológicos do Alzheimer: proteína tau e ubiquitina. Mais ainda: as gingipaínas mostraram capacidade de clivar proteínas neuronais e induzir a produção de beta-amilóide em modelos experimentais.
Este achado foi replicado em estudos subsequentes e é hoje considerado um dos dados mais robustos na investigação sobre as causas do Alzheimer.
Os mecanismos propostos
A investigação identificou três vias principais pelas quais a periodontite pode contribuir para a neurodegeneração:
1. Bacteriemia e invasão directa do sistema nervoso central
Porphyromonas gingivalis é capaz de entrar na corrente sanguínea através das gengivas inflamadas — um fenómeno demonstrável mesmo em pessoas com periodontite moderada durante a escovagem. A bactéria tem mecanismos que lhe permitem atravessar a barreira hematoencefálica e colonizar o sistema nervoso central.
2. Neuroinflamação mediada por citocinas
A periodontite é uma infecção bacteriana crónica que mantém o sistema imune em estado de activação persistente. As citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, TNF-α, IL-6) produzidas sistemicamente em resposta à periodontite activam a microglia cerebral — as células imunes do cérebro — num estado neuroinflamatório crónico associado à progressão do Alzheimer.
3. Eixo intestino-cérebro e disbiose oral-intestinal
A microbiota oral, quando perturbada pela periodontite, pode colonizar o tracto gastrointestinal e alterar o microbioma intestinal. O eixo intestino-cérebro — uma das áreas de investigação mais activas em neurociência — liga alterações do microbioma intestinal a neurinflamação e progressão de doenças neurodegenerativas.
A meta-análise que quantificou o risco
A hipótese de que os mecanismos moleculares responsáveis pela periodontite podem estar ligados a alterações bioquímicas em doenças neurodegenerativas tem ganho evidência crescente. A inflamação sistémica crónica como resposta à periodontite pode desempenhar um papel na etiologia do comprometimento cognitivo.
A meta-análise de Dziedzic, publicada no International Journal of Molecular Sciences (2022, DOI: 10.3390/ijms232315320), sistematizou os estudos clínicos e confirmou associação estatisticamente significativa entre periodontite e deterioração cognitiva — mesmo após controlo para factores de confundimento major como idade, educação, tabagismo e comorbilidades cardiovasculares.
A relação bidirecional — Alzheimer piora a saúde oral
Tal como outras relações sistémicas, a ligação periodontite-Alzheimer é bidirecional. Com a progressão da demência, a capacidade de manutenção da higiene oral deteriora-se progressivamente:
- Esquecimento da rotina de escovagem
- Dificuldade motora crescente
- Recusa de cuidados orais (comportamento comum na demência avançada)
- Incapacidade de comunicar dor oral
Doentes com Alzheimer avançado têm prevalência muito elevada de cáries extensas, doença periodontal severa e dor oral não diagnosticada — que pode manifestar-se como agitação ou alterações comportamentais sem causa aparente.
A revisão de Barbarisi et al. (Dentistry Journal, 2024, DOI: 10.3390/dj12100331) confirma que a saúde oral em doentes com Alzheimer piora em proporção directa com a progressão da doença.
Implicações práticas para diferentes grupos
Para a população geral
Manter a saúde periodontal é uma medida de saúde geral com múltiplos benefícios sistémicos documentados. A relação com a cognição acrescenta mais uma razão às já existentes (cardiovascular, metabólico, respiratório) para tratar e prevenir a periodontite.
Para pessoas com história familiar de Alzheimer
Dado o perfil de risco mais elevado, a atenção à saúde oral pode ter relevância adicional. A consulta regular de higiene e o tratamento activo de periodontite são medidas de baixo risco e custo razoável.
Para cuidadores de doentes com demência
A saúde oral de doentes com demência avançada requer atenção proactiva dos cuidadores e das equipas de saúde. Protocolos de higiene oral adaptados (dedeiras com colutório, escovagem assistida) fazem parte dos bons cuidados de demência avançada.
O que ainda não sabemos
A associação é sólida. Os mecanismos são biologicamente plausíveis e parcialmente demonstráveis. O que a ciência ainda não demonstrou é:
- Se o tratamento da periodontite reduz o risco de Alzheimer ou abranda o declínio cognitivo em pessoas em risco (ensaio clínico controlado de longo prazo — ainda não publicado com resultados definitivos)
- Se a relação é causal ou se existe um terceiro factor que predispõe simultaneamente para periodontite e Alzheimer
- Qual o período de exposição mínimo ou a intensidade da periodontite necessários para ter impacto cognitivo
A investigação está em curso — e os próximos 5-10 anos provavelmente trarão respostas mais definitivas. Entretanto, a relação custo-benefício de manter a saúde periodontal é favorável por múltiplas razões — a cognitiva sendo mais uma a considerar.
Este tema tratado na clínica
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