Saúde Sistémica 10 Novembro 2025

Periodontite e Alzheimer: A Ligação que a Ciência Está a Descobrir

Uma scoping review de 2025 com 52 estudos mostra que a periodontite aumenta o risco de Alzheimer e acelera o declínio cognitivo. ADN de Porphyromonas gingivalis foi encontrado no tecido cerebral de doentes. O que a ciência sabe — e o que ainda investiga.

Periodontite e Alzheimer: A Ligação que a Ciência Está a Descobrir

Uma das descobertas mais perturbadoras e fascinantes da investigação recente em saúde oral é a possível ligação entre a saúde das gengivas e a saúde do cérebro. A ideia de que uma infecção crónica na boca possa contribuir para a neurodegeneração que caracteriza a doença de Alzheimer seria impensável há 20 anos. Hoje, é o tema de dezenas de estudos publicados nas revistas científicas mais rigorosas do mundo.

O estado da evidência em 2025

Uma scoping review publicada em Frontiers in Aging Neuroscience (Zhang et al., 2025, DOI: 10.3389/fnagi.2025.1588008), que analisou 52 estudos publicados entre 2004 e 2025 — incluindo estudos clínicos, modelos animais e estudos in vitro — chegou a conclusões claras:

A evidência sugere que a doença periodontal aumenta o risco de Alzheimer e acelera o declínio cognitivo. Os mecanismos potenciais incluem agregação de proteínas beta-amilóide (Aβ) e tau, neuroinflamação desencadeada pela infecção por Porphyromonas gingivalis, e disregulação do eixo intestino-cérebro.

Esta revisão é a mais abrangente e recente disponível, e o seu peso metodológico é significativo.

O achado que mudou a investigação: P. gingivalis no cérebro

Em 2019, um estudo seminal publicado na Science Advances (Dominy et al., DOI: 10.1126/sciadv.aau3333) identificou ADN e proteínas de Porphyromonas gingivalis — a principal bactéria patogénica da periodontite — no tecido cerebral post-mortem e no líquido cefalorraquidiano de doentes com Alzheimer.

As gingipaínas — enzimas proteolíticas características desta bactéria — foram encontradas em concentrações que se correlacionaram positivamente com os marcadores neuropatológicos do Alzheimer: proteína tau e ubiquitina. Mais ainda: as gingipaínas mostraram capacidade de clivar proteínas neuronais e induzir a produção de beta-amilóide em modelos experimentais.

Este achado foi replicado em estudos subsequentes e é hoje considerado um dos dados mais robustos na investigação sobre as causas do Alzheimer.

Os mecanismos propostos

A investigação identificou três vias principais pelas quais a periodontite pode contribuir para a neurodegeneração:

1. Bacteriemia e invasão directa do sistema nervoso central

Porphyromonas gingivalis é capaz de entrar na corrente sanguínea através das gengivas inflamadas — um fenómeno demonstrável mesmo em pessoas com periodontite moderada durante a escovagem. A bactéria tem mecanismos que lhe permitem atravessar a barreira hematoencefálica e colonizar o sistema nervoso central.

2. Neuroinflamação mediada por citocinas

A periodontite é uma infecção bacteriana crónica que mantém o sistema imune em estado de activação persistente. As citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, TNF-α, IL-6) produzidas sistemicamente em resposta à periodontite activam a microglia cerebral — as células imunes do cérebro — num estado neuroinflamatório crónico associado à progressão do Alzheimer.

3. Eixo intestino-cérebro e disbiose oral-intestinal

A microbiota oral, quando perturbada pela periodontite, pode colonizar o tracto gastrointestinal e alterar o microbioma intestinal. O eixo intestino-cérebro — uma das áreas de investigação mais activas em neurociência — liga alterações do microbioma intestinal a neurinflamação e progressão de doenças neurodegenerativas.

A meta-análise que quantificou o risco

A hipótese de que os mecanismos moleculares responsáveis pela periodontite podem estar ligados a alterações bioquímicas em doenças neurodegenerativas tem ganho evidência crescente. A inflamação sistémica crónica como resposta à periodontite pode desempenhar um papel na etiologia do comprometimento cognitivo.

A meta-análise de Dziedzic, publicada no International Journal of Molecular Sciences (2022, DOI: 10.3390/ijms232315320), sistematizou os estudos clínicos e confirmou associação estatisticamente significativa entre periodontite e deterioração cognitiva — mesmo após controlo para factores de confundimento major como idade, educação, tabagismo e comorbilidades cardiovasculares.

A relação bidirecional — Alzheimer piora a saúde oral

Tal como outras relações sistémicas, a ligação periodontite-Alzheimer é bidirecional. Com a progressão da demência, a capacidade de manutenção da higiene oral deteriora-se progressivamente:

  • Esquecimento da rotina de escovagem
  • Dificuldade motora crescente
  • Recusa de cuidados orais (comportamento comum na demência avançada)
  • Incapacidade de comunicar dor oral

Doentes com Alzheimer avançado têm prevalência muito elevada de cáries extensas, doença periodontal severa e dor oral não diagnosticada — que pode manifestar-se como agitação ou alterações comportamentais sem causa aparente.

A revisão de Barbarisi et al. (Dentistry Journal, 2024, DOI: 10.3390/dj12100331) confirma que a saúde oral em doentes com Alzheimer piora em proporção directa com a progressão da doença.

Implicações práticas para diferentes grupos

Para a população geral

Manter a saúde periodontal é uma medida de saúde geral com múltiplos benefícios sistémicos documentados. A relação com a cognição acrescenta mais uma razão às já existentes (cardiovascular, metabólico, respiratório) para tratar e prevenir a periodontite.

Para pessoas com história familiar de Alzheimer

Dado o perfil de risco mais elevado, a atenção à saúde oral pode ter relevância adicional. A consulta regular de higiene e o tratamento activo de periodontite são medidas de baixo risco e custo razoável.

Para cuidadores de doentes com demência

A saúde oral de doentes com demência avançada requer atenção proactiva dos cuidadores e das equipas de saúde. Protocolos de higiene oral adaptados (dedeiras com colutório, escovagem assistida) fazem parte dos bons cuidados de demência avançada.

O que ainda não sabemos

A associação é sólida. Os mecanismos são biologicamente plausíveis e parcialmente demonstráveis. O que a ciência ainda não demonstrou é:

  • Se o tratamento da periodontite reduz o risco de Alzheimer ou abranda o declínio cognitivo em pessoas em risco (ensaio clínico controlado de longo prazo — ainda não publicado com resultados definitivos)
  • Se a relação é causal ou se existe um terceiro factor que predispõe simultaneamente para periodontite e Alzheimer
  • Qual o período de exposição mínimo ou a intensidade da periodontite necessários para ter impacto cognitivo

A investigação está em curso — e os próximos 5-10 anos provavelmente trarão respostas mais definitivas. Entretanto, a relação custo-benefício de manter a saúde periodontal é favorável por múltiplas razões — a cognitiva sendo mais uma a considerar.

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