A ciência descobriu uma ligação entre a boca e o coração — e é mais forte do que se pensava.
Durante décadas, saúde oral e saúde cardiovascular foram tratadas como territórios separados. Hoje, uma acumulação crescente de evidência científica sugere que podem estar mais ligadas do que o senso comum admitia — e que cuidar das gengivas pode ser, literalmente, uma questão de saúde cardíaca.
O que diz a ciência
A meta-análise de referência
Em 2023, um estudo publicado no PLoS ONE — uma das revistas científicas de maior prestígio e escrutínio — analisou 39 estudos prospetivos com 4,3 milhões de participantes para avaliar a associação entre doença periodontal e desfechos cardiovasculares e mortalidade.
Os resultados foram claros:
- Eventos cardiovasculares maiores: risco 24% superior (RR 1,24; IC 95%: 1,15–1,34)
- Doença coronária: risco 20% superior (RR 1,20)
- Enfarte do miocárdio: risco 14% superior (RR 1,14)
- AVC: risco 26% superior (RR 1,26)
- Morte cardíaca: risco 42% superior (RR 1,42)
- Mortalidade total: risco 31% superior (RR 1,31)
(Guo X et al., PLoS ONE, 2023. DOI: 10.1371/journal.pone.0290545)
Confirmado em revisões independentes
Uma umbrella review publicada em BMC Oral Health em 2024, que revisou sistematicamente meta-análises anteriores, concluiu que a associação entre doença periodontal e doença cardiovascular é consistente e estatisticamente robusta em múltiplos desfechos cardiovasculares.
(Arbildo-Vega HI et al., BMC Oral Health, 2024. DOI: 10.1186/s12903-024-04907-1)
Os mecanismos propostos
A associação está bem documentada epidemiologicamente. A questão que a ciência ainda investiga ativamente é o mecanismo causal exacto. Três hipóteses principais:
1. Bacteriemia e colonização vascular
As bactérias periodontais — particularmente Porphyromonas gingivalis, Treponema denticola e Fusobacterium nucleatum — entram na corrente sanguínea pelas gengivas inflamadas. Não é teoria: estudos histopatológicos identificaram ADN destas bactérias em placas ateroscleróticas de artérias coronárias de doentes cardíacos.
2. Inflamação sistémica crónica
A periodontite é uma infeção bacteriana crónica que mantém o sistema imune em estado de alerta permanente. Citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, IL-6, TNF-α) e proteínas de fase aguda (PCR) produzidas em resposta à infeção periodontal circulam sistemicamente e contribuem para a aterogénese — o processo que leva à formação de placas nas artérias.
Uma revisão publicada em Nature Reviews Immunology descreveu estes mecanismos de ligação entre periodontite e comorbilidades inflamatórias sistémicas (Hajishengallis G, Chavakis T, Nat Rev Immunol, 2021).
3. Disfunção endotelial
A inflamação crónica associada à periodontite compromete a função do endotélio — a camada interna dos vasos sanguíneos. Um endotélio disfuncional é o ponto de partida da aterosclerose.
Estudos de intervenção mostram que o tratamento periodontal bem-sucedido melhora marcadores de função endotelial (dilatação mediada por fluxo) em 2 a 3 meses.
O que ainda não é certo
É importante ser honesto sobre os limites da evidência actual:
O que sabemos: associação epidemiológica forte e consistente, mecanismos biológicos plausíveis e demonstráveis em estudos de laboratório.
O que ainda não está provado: causalidade directa — que tratar as gengivas previne enfartes ou reduz a mortalidade cardiovascular. Os ensaios clínicos controlados de longo prazo necessários para esta prova são extraordinariamente difíceis de realizar (duração, dimensão, ética).
A Mendelian Randomization (um método estatístico que usa variantes genéticas para testar causalidade) tem dado resultados mistos — alguns estudos sugerem causalidade, outros não a confirmam.
A interpretação honesta é: a associação é real e os mecanismos são biologicamente plausíveis; a causalidade directa é provável mas ainda não definitivamente provada.
Implicações práticas
Para pacientes com risco cardiovascular
Se tem factores de risco cardíaco (hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, história familiar), a saúde periodontal é uma variável adicional a controlar. Não substituindo a medicação ou as mudanças de estilo de vida — mas como complemento.
Para pacientes com doença periodontal
Informar o cardiologista. A saúde oral deve constar da avaliação de risco cardiovascular global. Vários guidelines de cardiologia já recomendam esta comunicação interdisciplinar.
Para toda a população
A doença periodontal é prevalente, silenciosa e muitas vezes ignorada. Os dados do Barómetro da Saúde Oral 2025 (Ordem dos Médicos Dentistas) mostram que mais de metade dos portugueses tem falta de dentes — um indicador indirecto da prevalência de doença periodontal não tratada.
A conclusão clínica
Tratar a periodontite é bom para os dentes. Pode ser bom para o coração. E tem poucos riscos e custos razoáveis. Mesmo que a evidência de causalidade directa não esteja completamente encerrada, a relação custo-benefício de manter gengivas saudáveis é claramente favorável — pelos dentes, pela qualidade de vida e, possivelmente, pelo coração.
Este tema tratado na clínica
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