Saúde Sistémica 20 Outubro 2025

Apneia do Sono e o Dentista: O Que Pode Ser Feito

A apneia obstrutiva do sono afecta cerca de 1 bilião de pessoas. O dentista pode fabricar dispositivos de avanço mandibular — alternativa ao CPAP com evidência sólida para casos leves a moderados.

Apneia do Sono e o Dentista: O Que Pode Ser Feito

Cerca de 1 bilião de pessoas em todo o mundo têm apneia obstrutiva do sono — uma condição em que as vias aéreas colapsam parcial ou totalmente durante o sono, causando microdespertares repetidos, dessaturação de oxigénio e uma cascata de consequências para a saúde sistémica.

A maioria sabe que o CPAP (pressão positiva contínua) é o tratamento de referência. Muito menos sabem que o dentista tem um papel terapêutico real e baseado em evidência nesta condição.

O que é a apneia obstrutiva do sono

Durante o sono, os músculos das vias aéreas superiores relaxam. Em pessoas com apneia obstrutiva do sono (AOS), este relaxamento causa obstrução parcial ou total da via aérea — o que interrompe a respiração durante segundos a minutos, várias vezes por hora. O organismo responde com um microdespertar que não é consciente mas que fragmenta o sono e impede o descanso profundo.

O diagnóstico é feito por polissonografia (estudo do sono laboratorial) ou teste de apneia domiciliário, com base no índice de apneia-hipopneia (IAH):

  • Leve: 5-14 eventos por hora
  • Moderada: 15-29 eventos por hora
  • Severa: 30 ou mais eventos por hora

Estima-se que cerca de um bilião de pessoas em todo o mundo têm AOS, tornando-a um dos problemas de saúde pública mais subdiagnosticados globalmente.

As consequências sistémicas não tratadas

A AOS não tratada está associada a:

  • Hipertensão arterial — a AOS é uma das causas secundárias identificáveis de hipertensão resistente
  • Doença cardiovascular — fibrilhação auricular, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral
  • Diabetes tipo 2 — resistência à insulina agravada pela privação de sono e hipoxia intermitente
  • Depressão e ansiedade — a fragmentação do sono tem impacto directo na saúde mental
  • Acidentes de viação — a sonolência diurna excessiva é um factor de risco independente

O papel do dentista — dispositivos de avanço mandibular

O dentista não diagnostica apneia do sono. Mas pode fabricar e ajustar dispositivos intraorais — nomeadamente dispositivos de avanço mandibular (DAM) — como modalidade de tratamento alternativa ou complementar ao CPAP.

Como funcionam os DAM

Os DAM são goteiras em acrílico ou resina que mantêm a mandíbula numa posição de avanço durante o sono. Este avanço tracciona para a frente a língua e os tecidos moles da orofaringe, alargando a via aérea e reduzindo a tendência ao colapso.

São fabricados por medida pelo dentista, com base em modelos digitais das arcadas, e ajustados progressivamente até encontrar a posição de avanço óptima — com eficácia máxima e efeitos secundários mínimos.

O que a evidência mostra

Revisão sistemática mais recente (2026)

Uma revisão sistemática publicada no Dentistry Journal (Szmyt et al., Janeiro 2026, DOI: 10.3390/dj14010062), da Universidade Médica de Gdansk, revisou a literatura de 2020 a 2025 sobre DAM para AOS:

Os DAM são eficazes na redução do IAH, melhoria da saturação de oxigénio e redução da sonolência diurna. A adesão ao tratamento é consistentemente superior à do CPAP. Para casos de AOS leve a moderada, os DAM são uma alternativa válida de primeira linha. Para casos severos onde o CPAP é recusado ou não tolerado, os DAM são uma alternativa aceitável.

Compliance superior ao CPAP

Um problema estrutural do CPAP é a adesão: estudos estimam que 30-50% dos pacientes abandonam o tratamento com CPAP no primeiro ano, principalmente por desconforto, ruído, claustrofobia e dificuldade de viajar com o equipamento.

Os DAM têm compliance consistentemente superior — são discretos, silenciosos, portáteis e não requerem electricidade. Esta vantagem prática translada-se em maior eficácia no mundo real, mesmo que em contexto laboratorial o CPAP seja mais eficaz na redução do IAH.

Efeitos secundários — o que monitorizar

A meta-análise de Chen et al. (Journal of Prosthodontic Research, 2024, DOI: 10.1111/jopr.13946) avaliou as alterações dentárias de longo prazo do uso de DAM:

O uso prolongado de DAM provoca principalmente alterações dentárias — retroinclinação dos incisivos superiores e proclinarão dos inferiores — resultando em redução progressiva do overjet e overbite. Estas alterações são principalmente dentárias e não esqueléticas, e devem ser monitorizadas com consultas de seguimento regulares ao dentista.

Esta monitorização periódica é fundamental — é uma das razões pelas quais os DAM fabricados por dentistas com seguimento clínico regular são preferíveis a dispositivos "boil and bite" vendidos em farmácias.

Relação entre apneia do sono e saúde oral

A relação é bidirecional. Uma revisão publicada no International Journal of Dentistry (Kim & Park, 2024, PMC11274061) identificou múltiplas interacções:

AOS afecta a saúde oral:

  • Bruxismo do sono — a AOS está associada a maior prevalência de bruxismo
  • Boca seca (xerostomia) — respiração oral nocturna reduz o fluxo salivar, aumentando o risco de cárie e doença periodontal
  • Doença periodontal — hipoxia intermitente e inflamação sistémica associada à AOS podem agravar a periodontite

Saúde oral afecta a AOS:

  • Características anatómicas maxilofaciais (retrognatismo, macroglossia, amígdalas hipertróficas) contribuem para a predisposição à AOS
  • Oclusão e posição mandibular influenciam o espaço das vias aéreas superiores

Quando consultar o dentista para apneia do sono

Se tiver diagnóstico de AOS (especialmente leve a moderada) e:

  • Não tolerar o CPAP (desconforto, claustrofobia, ruído)
  • Viajar frequentemente e o CPAP for inconveniente
  • Pretender uma alternativa mais discreta
  • O pneumologista tiver referenciado para avaliação de dispositivo intraoral

O processo inclui: consulta de avaliação com o dentista, modelos digitais das arcadas, fabricação do DAM personalizado, ajuste progressivo com follow-up, e monitorização de efeitos secundários a longo prazo.

O diagnóstico de apneia do sono — e a decisão de tratamento — é sempre médica. O dentista colabora como parceiro terapêutico, não como substituto do médico.

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