Cerca de 1 bilião de pessoas em todo o mundo têm apneia obstrutiva do sono — uma condição em que as vias aéreas colapsam parcial ou totalmente durante o sono, causando microdespertares repetidos, dessaturação de oxigénio e uma cascata de consequências para a saúde sistémica.
A maioria sabe que o CPAP (pressão positiva contínua) é o tratamento de referência. Muito menos sabem que o dentista tem um papel terapêutico real e baseado em evidência nesta condição.
O que é a apneia obstrutiva do sono
Durante o sono, os músculos das vias aéreas superiores relaxam. Em pessoas com apneia obstrutiva do sono (AOS), este relaxamento causa obstrução parcial ou total da via aérea — o que interrompe a respiração durante segundos a minutos, várias vezes por hora. O organismo responde com um microdespertar que não é consciente mas que fragmenta o sono e impede o descanso profundo.
O diagnóstico é feito por polissonografia (estudo do sono laboratorial) ou teste de apneia domiciliário, com base no índice de apneia-hipopneia (IAH):
- Leve: 5-14 eventos por hora
- Moderada: 15-29 eventos por hora
- Severa: 30 ou mais eventos por hora
Estima-se que cerca de um bilião de pessoas em todo o mundo têm AOS, tornando-a um dos problemas de saúde pública mais subdiagnosticados globalmente.
As consequências sistémicas não tratadas
A AOS não tratada está associada a:
- Hipertensão arterial — a AOS é uma das causas secundárias identificáveis de hipertensão resistente
- Doença cardiovascular — fibrilhação auricular, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral
- Diabetes tipo 2 — resistência à insulina agravada pela privação de sono e hipoxia intermitente
- Depressão e ansiedade — a fragmentação do sono tem impacto directo na saúde mental
- Acidentes de viação — a sonolência diurna excessiva é um factor de risco independente
O papel do dentista — dispositivos de avanço mandibular
O dentista não diagnostica apneia do sono. Mas pode fabricar e ajustar dispositivos intraorais — nomeadamente dispositivos de avanço mandibular (DAM) — como modalidade de tratamento alternativa ou complementar ao CPAP.
Como funcionam os DAM
Os DAM são goteiras em acrílico ou resina que mantêm a mandíbula numa posição de avanço durante o sono. Este avanço tracciona para a frente a língua e os tecidos moles da orofaringe, alargando a via aérea e reduzindo a tendência ao colapso.
São fabricados por medida pelo dentista, com base em modelos digitais das arcadas, e ajustados progressivamente até encontrar a posição de avanço óptima — com eficácia máxima e efeitos secundários mínimos.
O que a evidência mostra
Revisão sistemática mais recente (2026)
Uma revisão sistemática publicada no Dentistry Journal (Szmyt et al., Janeiro 2026, DOI: 10.3390/dj14010062), da Universidade Médica de Gdansk, revisou a literatura de 2020 a 2025 sobre DAM para AOS:
Os DAM são eficazes na redução do IAH, melhoria da saturação de oxigénio e redução da sonolência diurna. A adesão ao tratamento é consistentemente superior à do CPAP. Para casos de AOS leve a moderada, os DAM são uma alternativa válida de primeira linha. Para casos severos onde o CPAP é recusado ou não tolerado, os DAM são uma alternativa aceitável.
Compliance superior ao CPAP
Um problema estrutural do CPAP é a adesão: estudos estimam que 30-50% dos pacientes abandonam o tratamento com CPAP no primeiro ano, principalmente por desconforto, ruído, claustrofobia e dificuldade de viajar com o equipamento.
Os DAM têm compliance consistentemente superior — são discretos, silenciosos, portáteis e não requerem electricidade. Esta vantagem prática translada-se em maior eficácia no mundo real, mesmo que em contexto laboratorial o CPAP seja mais eficaz na redução do IAH.
Efeitos secundários — o que monitorizar
A meta-análise de Chen et al. (Journal of Prosthodontic Research, 2024, DOI: 10.1111/jopr.13946) avaliou as alterações dentárias de longo prazo do uso de DAM:
O uso prolongado de DAM provoca principalmente alterações dentárias — retroinclinação dos incisivos superiores e proclinarão dos inferiores — resultando em redução progressiva do overjet e overbite. Estas alterações são principalmente dentárias e não esqueléticas, e devem ser monitorizadas com consultas de seguimento regulares ao dentista.
Esta monitorização periódica é fundamental — é uma das razões pelas quais os DAM fabricados por dentistas com seguimento clínico regular são preferíveis a dispositivos "boil and bite" vendidos em farmácias.
Relação entre apneia do sono e saúde oral
A relação é bidirecional. Uma revisão publicada no International Journal of Dentistry (Kim & Park, 2024, PMC11274061) identificou múltiplas interacções:
AOS afecta a saúde oral:
- Bruxismo do sono — a AOS está associada a maior prevalência de bruxismo
- Boca seca (xerostomia) — respiração oral nocturna reduz o fluxo salivar, aumentando o risco de cárie e doença periodontal
- Doença periodontal — hipoxia intermitente e inflamação sistémica associada à AOS podem agravar a periodontite
Saúde oral afecta a AOS:
- Características anatómicas maxilofaciais (retrognatismo, macroglossia, amígdalas hipertróficas) contribuem para a predisposição à AOS
- Oclusão e posição mandibular influenciam o espaço das vias aéreas superiores
Quando consultar o dentista para apneia do sono
Se tiver diagnóstico de AOS (especialmente leve a moderada) e:
- Não tolerar o CPAP (desconforto, claustrofobia, ruído)
- Viajar frequentemente e o CPAP for inconveniente
- Pretender uma alternativa mais discreta
- O pneumologista tiver referenciado para avaliação de dispositivo intraoral
O processo inclui: consulta de avaliação com o dentista, modelos digitais das arcadas, fabricação do DAM personalizado, ajuste progressivo com follow-up, e monitorização de efeitos secundários a longo prazo.
O diagnóstico de apneia do sono — e a decisão de tratamento — é sempre médica. O dentista colabora como parceiro terapêutico, não como substituto do médico.
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