Odontopediatria 23 Setembro 2026

Pasta de Dentes para Crianças: Qual Escolher em Cada Idade

A maioria dos pais escolhe a pasta pela idade impressa na frente da embalagem. O número que interessa está atrás, em letra pequena: 1000 a 1500 ppm de flúor, desde o primeiro dente. O que muda com a idade é a quantidade, não a concentração.

Pasta de Dentes para Crianças: Qual Escolher em Cada Idade

A pasta de dentes certa para uma criança tem entre 1000 e 1500 ppm de flúor, desde o primeiro dente que nasce — e o que muda com a idade é a quantidade na escova, não a concentração. É a recomendação da Direção-Geral da Saúde, e contraria o que está escrito em boa parte das embalagens infantis à venda em Portugal. Este artigo explica o número, onde o encontrar no rótulo, quanto usar em cada idade e porque é que a pasta "para bebé" pode não estar a proteger o seu filho de nada.

A resposta curta

  • Desde o primeiro dente: pasta com flúor, entre 1000 e 1500 ppm.
  • Até aos 3 anos: uma película fina, do tamanho da unha do dedo mindinho da criança.
  • Dos 3 aos 6 anos: uma quantidade do tamanho de uma ervilha.
  • A partir dos 6 anos: 1 a 2 cm de pasta, e pode passar a uma de 1450 ppm.
  • Sempre: duas escovagens por dia, feitas ou revistas por um adulto, e uma delas obrigatoriamente antes de deitar.

O resto do artigo explica o porquê de cada linha — e como não comprar uma pasta que não protege.

O flúor é a parte que interessa

A cárie é a doença crónica mais comum da infância, e a medida individual com melhor evidência para a prevenir é escovar os dentes com uma pasta fluoretada. Tudo o resto — sabor, cor, personagem na embalagem, formulação "natural" — é secundário a esse facto.

O mecanismo é direto. Quando as bactérias da placa transformam os açúcares da alimentação em ácidos, o esmalte perde minerais: é a desmineralização. Entre refeições, a saliva repõe parte desses minerais. O flúor acelera e reforça essa reposição, e o esmalte que se forma nessa presença é mais resistente ao ataque ácido seguinte. É um efeito tópico, de contacto — depende de o flúor estar em contacto com o dente, não de ser ingerido.

Daí decorrem duas consequências práticas que quase toda a gente desconhece: uma pasta sem flúor é, para efeitos de prevenção da cárie, um cosmético com sabor a morango; e não se deve bochechar com água depois de escovar, porque isso lava justamente o que queremos que fique.

O que diz a DGS: 1000 a 1500 ppm desde o primeiro dente

O Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral da Direção-Geral da Saúde é claro: a escovagem começa com a erupção do primeiro dente, com pasta fluoretada de 1000 a 1500 ppm, e é a quantidade — não a concentração — que se ajusta à idade.

A declaração política da Federação Dentária Internacional sobre flúor tópico, adotada em dezembro de 2025 com colaboração da Ordem dos Médicos Dentistas, diz o mesmo por outras palavras: escovagem pelo menos duas vezes por dia com dentífrico de concentração mínima de 1000 a 1100 ppm, desde a erupção do primeiro dente e mantida ao longo de toda a vida. A Academia Europeia de Odontopediatria atualizou as suas orientações em 2019 na mesma direção.

Isto contraria frontalmente uma ideia ainda muito difundida — a de que bebés e crianças pequenas devem usar pastas "suaves", de 250 ou 500 ppm. Essa recomendação existiu, e foi abandonada por duas razões. A primeira é que essas pastas quase não previnem cárie: a revisão Cochrane sobre concentrações de flúor mostra que abaixo de 1000 ppm o efeito deixa de se distinguir consistentemente de um placebo, e que em concentrações de 550 ppm ou menos não há sequer efeito estatisticamente significativo. A segunda é que não compensavam com segurança o que perdiam em eficácia — não reduziam de forma relevante o risco de fluorose face à pasta normal usada em pequena quantidade.

A segurança, hoje, vem do controlo da quantidade. E é por isso que a quantidade é a parte deste artigo que vale mesmo a pena memorizar.

O erro mais comum: a pasta "0-6 anos" com flúor a menos

Aqui está o problema concreto do corredor do supermercado português.

Muitas pastas vendidas em Portugal com rótulo "0-6 anos", "bebé" ou "primeiros dentes" têm 250 ppm, 500 ppm ou nenhum flúor. Um estudo apresentado na Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária analisou 23 pastas infantis à venda em grandes superfícies e farmácias em Portugal e concluiu que a maioria das pastas dirigidas à faixa dos 0 aos 6 anos tinha concentração de flúor desadequada face às recomendações nacionais.

O resultado é uma armadilha involuntária: os pais compram de boa-fé a pasta "da idade certa", escovam os dentes ao filho duas vezes por dia com disciplina, e estão a usar um produto que não faz aquilo que precisam que ele faça. A embalagem diz "bebé". A proteção é quase nenhuma.

A solução não é complicada, e demora dez segundos: virar a embalagem.

Como ler o rótulo em dez segundos

Procure a indicação "ppm F" ou "ppm de flúor". A legislação obriga a que conste na embalagem. Quer ver 1000 ou mais.

Se o rótulo indicar apenas o composto e a percentagem, esta tabela faz a conversão:

Composto no rótulo Percentagem ppm de flúor
Fluoreto de sódio (sodium fluoride) 0,22% ≈ 1000
Fluoreto de sódio 0,32% ≈ 1450
Monofluorofosfato de sódio (sodium monofluorophosphate) 0,76% ≈ 1000
Monofluorofosfato de sódio 1,10% ≈ 1450
Fluoreto de amina (olaflur) varia ver ppm no rótulo

Se não encontrar nem o valor em ppm nem a percentagem de um composto de flúor, a conclusão é simples: a pasta não tem flúor, e não serve para prevenir a cárie.

Quanto usar em cada idade

A concentração mantém-se. O que muda é o que vai para a escova.

Do primeiro dente aos 3 anos

Uma película fina, do tamanho da unha do dedo mindinho da criança. Não é um cilindro de pasta ao longo da escova — é uma camada que mal cobre as cerdas. A escovagem é feita pelos pais, duas vezes por dia, com escova pequena de cerdas macias (ou dedeira, nos primeiros meses). Não é preciso bochechar; se sobrar espuma, limpa-se com uma gaze ou uma fralda.

Dos 3 aos 6 anos

Uma quantidade do tamanho de uma ervilha. É a idade em que a criança começa a escovar sozinha para ganhar autonomia — mas os pais terminam ou revêem a escovagem. É também a idade de ensinar a cuspir sem bochechar com água, para o flúor ficar mais tempo em contacto com os dentes.

A partir dos 6 anos

A quantidade sobe para 1 a 2 cm — uma fita ao longo da escova, já próxima da dose de adulto. Pode manter-se a pasta de 1000 ppm ou passar a uma de 1450 ppm, a concentração corrente das pastas de adulto, sobretudo se a criança tiver risco de cárie mais elevado. A supervisão mantém-se até pelo menos aos 8 anos, e muitos odontopediatras recomendam-na até mais tarde na escovagem da noite, que é a que mais conta.

A criança engole a pasta. É problema?

Até aos 3 anos vai engolir, e é esperado: a capacidade de cuspir só aparece por volta dessa idade. A questão nunca foi se engole — é quanto.

Uma película fina de pasta a 1000 ppm contém cerca de 0,1 mg de flúor. Engolida duas vezes por dia, fica muito abaixo do limiar associado à fluorose. Uma ervilha ronda os 0,25 mg, e mantém-se dentro de margem confortável para a idade a que se destina.

O risco real está noutro sítio, e é comportamental:

  • O tubo fica fora do alcance da criança, e é o adulto que põe a pasta na escova. Crianças que gostam do sabor comem pasta do tubo, e é aí que as doses deixam de ser pequenas.
  • Se notar que o seu filho "come" a pasta, mude para um sabor menos apelativo. Menta suave ou sem sabor resolvem.
  • Não dê suplementos de flúor — gotas ou comprimidos — sem indicação do médico dentista ou do pediatra.

Fluorose, sem alarmismo e sem desvalorizar

A fluorose dentária resulta da ingestão excessiva de flúor durante a formação dos dentes definitivos, sobretudo até aos 6 anos. Na forma ligeira — a única que se observa em Portugal, onde a água da rede pública não é fluoretada — manifesta-se por pequenas manchas brancas opacas no esmalte, sem qualquer consequência para a saúde ou a função do dente. Abordamos o tema em detalhe no artigo sobre flúor nos dentes: mitos e evidência, e as manchas brancas têm outras causas frequentes, tratadas em manchas brancas nos dentes.

Comparar os dois riscos ajuda a decidir com clareza. De um lado, uma alteração estética discreta e evitável controlando a quantidade de pasta. Do outro, a cárie na infância: dor, infeção, perda precoce de dentes de leite, problemas na erupção dos definitivos e, com frequência, tratamento sob sedação numa criança pequena. A balança não está equilibrada — pende claramente para usar flúor, com a quantidade certa.

O que não interessa na escolha

O sabor. Interessa só para a criança aceitar escovar. Morango, menta suave ou sem sabor — o que ela tolerar. Se rejeita a menta, não vale a pena insistir por princípio.

A personagem na embalagem. É marketing, e não é mau: se ajuda a criança a querer escovar, aproveite. Só não diz absolutamente nada sobre a qualidade do produto.

"Natural", "sem químicos", "bio". Uma pasta de dentes é, por definição, um produto químico. As pastas "naturais" sem flúor são precisamente as que menos protegem. Se prefere uma formulação simples, procure uma com poucos ingredientes — mas com flúor.

Pastas branqueadoras. Nunca em crianças. São mais abrasivas, e o esmalte dos dentes de leite é mais fino do que o dos definitivos.

Gel ou pasta. Indiferente.

O preço. Uma pasta de marca branca com 1000 ppm protege tanto como a mais cara da prateleira. A diferença está no rótulo, não na etiqueta.

Ingredientes que merecem atenção

  • Lauril sulfato de sódio (SLS). É o detergente que faz espuma. Para a maioria das crianças é irrelevante, mas quem tem aftas recorrentes ou mucosa sensível tolera melhor pastas sem SLS.
  • Xilitol. Adoçante que as bactérias da cárie não conseguem metabolizar. Não é essencial, mas é um bónus razoável.
  • Hidroxiapatite. Aparece em várias pastas infantis como alternativa remineralizante ao flúor. A investigação é promissora, mas o corpo de evidência é muito mais pequeno, muito mais recente e frequentemente financiado por quem fabrica estes produtos. Não substitui, hoje, a recomendação da DGS. Se quiser usá-la, prefira uma formulação que também tenha flúor.
  • Corantes artificiais e triclosan. Não são necessários. Evitáveis, havendo escolha.

Que pastas cumprem o critério em Portugal

Não há uma "melhor pasta". Há pastas que cumprem o critério e pastas que não cumprem.

As grandes marcas presentes no mercado português — Elmex, Colgate, Oral-B, Sensodyne, Vitis, Lacer, entre outras — e várias marcas de farmácia têm linhas infantis com 1000 ppm ou mais. Mas dentro da mesma marca e da mesma gama infantil coexistem frequentemente versões com 500 ppm ou sem flúor nenhum, distinguidas apenas pela faixa etária impressa na frente.

Por isso o conselho é sempre o mesmo, e não depende de marca: ignore a idade impressa na frente e leia os ppm atrás.

Se tiver dúvidas sobre uma pasta específica, traga a embalagem à consulta. É uma pergunta que respondemos praticamente todos os dias.

Quando começar e como criar o hábito

  • Ao primeiro dente, por volta dos 6 meses: gaze ou dedeira com uma película de pasta fluoretada, duas vezes por dia.
  • Ao primeiro ano: primeira consulta no médico dentista. Serve para avaliar o risco de cárie, corrigir a técnica dos pais e tirar dúvidas — não para tratar seja o que for. Explicamos o que esperar em quando levar a criança ao dentista pela primeira vez.
  • Aos 2-3 anos: escova pequena de cerdas macias; a criança começa a participar na escovagem.
  • Rotina fixa: de manhã e antes de deitar. A escovagem da noite é a mais importante — durante o sono a produção de saliva diminui e as bactérias ficam com horas de vantagem.
  • Nada depois da escovagem da noite: nem leite, nem sumo, nem bolacha. Só água. Sobre o papel do açúcar nisto, veja açúcar e cáries.

O que a pasta não resolve

A escovagem controla a placa bacteriana, e é a base de tudo. Mas não deteta uma cárie a começar entre dois dentes, não avalia o risco individual da criança e não decide se há indicação para selantes ou para aplicação tópica de flúor em consultório.

Na Clínica Dr. António Bexiga fazemos odontopediatria nas duas unidades, Lisboa e Portela. Se o seu filho ainda não teve a primeira consulta, ou se ficou com dúvidas sobre a pasta que tem em casa, marque uma avaliação — e traga a embalagem consigo.

Para a sua própria pasta, as regras são parecidas mas não iguais: explicámo-las em como escolher a pasta de dentes.

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