Prevenção 12 Setembro 2026

Como Escolher a Pasta de Dentes

A escolha é mais simples do que o corredor do supermercado sugere. Flúor a 1450 ppm, abrasividade moderada, sabor que tolere — e a técnica de escovagem conta mais do que a marca.

Como Escolher a Pasta de Dentes

Para um adulto sem problemas específicos, a escolha resume-se a isto: uma pasta com cerca de 1450 ppm de flúor, abrasividade moderada e um sabor que tolere bem. O resto do corredor do supermercado é sobretudo marketing. Este artigo explica o que verificar no rótulo, o que pode ignorar com segurança, e porque a forma como escova conta mais do que a marca que comprou.

O flúor é a parte que interessa

É o ingrediente com melhor evidência para prevenir cáries e favorecer a remineralização do esmalte — e é a razão pela qual uma pasta funciona.

Em dezembro de 2025, a Federação Dentária Internacional adotou uma declaração política sobre o uso de flúor tópico, redigida com a colaboração da Ordem dos Médicos Dentistas. A recomendação é direta: escovagem pelo menos duas vezes por dia com dentífrico fluoretado de concentração mínima de 1000 a 1100 ppm, desde a erupção do primeiro dente e mantida ao longo de toda a vida. O Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral da Direção-Geral da Saúde aponta no mesmo sentido, com o intervalo de 1000 a 1500 ppm.

Para um adulto, 1450 ppm — a concentração mais comum nas pastas de gama corrente — está exatamente onde deve estar.

O limiar dos 1000 ppm não é arbitrário. A revisão Cochrane sobre concentrações de flúor, que reúne dezenas de ensaios e dezenas de milhares de participantes, mostra que o efeito preventivo aumenta com a concentração e que abaixo de 1000 ppm deixa de se distinguir consistentemente de um placebo — em concentrações de 550 ppm ou menos, não há sequer efeito estatisticamente significativo. É o número a verificar, e costuma vir em letra pequena nas costas da embalagem.

Vale a pena perceber a dimensão do que está em jogo: a cárie dentária é uma das doenças não transmissíveis mais prevalentes do mundo — o tema de uma série do The Lancet sobre a negligência da saúde oral global — e a pasta fluoretada consta hoje da Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial de Saúde. É o produto de supermercado com melhor retorno em saúde pública que existe.

No rótulo, o flúor aparece com um destes nomes:

  • Sodium fluoride (fluoreto de sódio)
  • Sodium monofluorophosphate (monofluorofosfato de sódio)
  • Stannous fluoride (fluoreto estanoso)

Não é preciso que seja uma pasta premium nem cheia de ingredientes adicionais. Uma pasta de supermercado com 1450 ppm de flúor faz o trabalho.

Se tem sensibilidade, procure o princípio ativo

A palavra sensitive na embalagem não garante nada. O que interessa é o ingrediente:

  • Nitrato de potássio
  • Fluoreto estanoso
  • Algumas formulações com arginina

Uma meta-análise em rede publicada em 2023 conclui que a aplicação duas vezes por dia de fluoreto estanoso, de sais de potássio (isolados ou com estanoso) ou de arginina pode ser recomendada para reduzir a dor por sensibilidade dentinária. Os mecanismos diferem: o nitrato de potássio atua sobre o nervo, despolarizando-o; o fluoreto estanoso e a arginina obliteram os túbulos dentinários.

Dê-lhes tempo — sobretudo às de potássio, em que a literatura é explícita a dizer que são precisas várias semanas de uso continuado até o benefício aparecer. Duas a quatro semanas é o intervalo realista antes de concluir que uma pasta não resultou.

Uma ressalva clínica que nos parece mais importante do que a escolha da pasta: se a sensibilidade apareceu de repente, é intensa, ou está concentrada num só dente, isso não é um problema de pasta de dentes. Pode ser cárie, fissura, restauração infiltrada ou retração gengival. Nesses casos, mudar de pasta só atrasa o diagnóstico.

Pastas branqueadoras: o que fazem e o que não fazem

Uma pasta branqueadora remove manchas superficiais — café, chá, tabaco, vinho tinto. Não altera a cor intrínseca do dente, que é o que a maioria das pessoas quer mudar quando compra uma. Para isso é preciso branqueamento profissional, que é um procedimento diferente.

A forma como a maioria delas remove essas manchas é por abrasão. A abrasividade mede-se pelo índice RDA (relative dentin abrasivity), e a referência é clara: segundo a American Dental Association, qualquer pasta com RDA igual ou inferior a 250 é considerada segura para uso diário — e todas as pastas com o selo da ADA cumprem esse limite.

Há aqui um detalhe que se perde muito nas listas que circulam online: abaixo de 250, o número de RDA não serve para ordenar pastas da mais segura para a menos segura. Uma pasta com RDA 240 é tão segura para uma vida inteira de uso como uma com RDA 40. O que muda é o contexto: se já tem recessão gengival, dentina exposta ou desgaste dentário instalado, aí faz sentido preferir uma pasta menos abrasiva no dia-a-dia, e é uma conversa a ter na consulta.

Os ingredientes que "temos de evitar" — o que é verdade

Esta é a zona onde a internet gera mais ruído. Ponto por ponto:

SLS (lauril sulfato de sódio). Não é um ingrediente perigoso e não há razão para a população em geral o evitar. É um detergente que faz a pasta espumar, e a ADA reconhece-o como potencial irritante apenas em indivíduos suscetíveis.

Mas há um grupo para quem isto deixa de ser conversa de internet: quem tem estomatite aftosa recorrente. Uma revisão sistemática de estudos cruzados concluiu que, nestes doentes, o dentífrico sem SLS reduziu significativamente o número de aftas, a duração, o número de episódios e a dor. O mecanismo proposto é a remoção da camada de mucina que protege a mucosa. Se tem aftas de repetição, experimentar uma pasta sem SLS é uma medida simples com fundamento. Se não tem, ignore o tema.

Óleos essenciais, canela, mentol. Também não são maus por definição. São, isso sim, das causas mais frequentes de dermatite de contacto e irritação provocada por dentífricos. Se tem ardor nos lábios ou descamação recorrente sem outra explicação, o aroma da pasta é um suspeito razoável.

Triclosan. Não vale a pena procurar uma pasta que o contenha — não traz vantagem nenhuma face às alternativas atuais. Mas convém corrigir uma ideia que circula: o triclosan nunca foi proibido em pastas de dentes. A FDA baniu-o em sabonetes de uso corrente em 2016 e deixou-o deliberadamente de fora dessa proibição nos dentífricos; na União Europeia continua autorizado até 0,3%. O que aconteceu foi comercial, não regulatório: a Colgate reformulou a Colgate Total em 2019, substituindo-o por fluoreto estanoso, e na prática o ingrediente desapareceu do mercado. O resultado é o mesmo — dificilmente o encontrará — mas a razão é outra.

"Sem flúor". Para um adulto que quer prevenir cáries, não é a escolha certa. "Natural", "sem químicos" ou "com minerais" não substituem a evidência do flúor. E vale a pena notar o óbvio: o flúor também é um mineral de ocorrência natural.

E a hidroxiapatite?

Aqui a conversa é mais interessante do que a resposta habitual sugere.

Existem pastas com hidroxiapatite — o mesmo mineral de que o esmalte é maioritariamente feito — e revisões sistemáticas recentes concluem que é não-inferior ao flúor na prevenção de cáries e na remineralização de lesões iniciais. Não é, portanto, honesto dizer que "não tem evidência". Tem.

O que tem é menos evidência: um corpo de estudos muito mais pequeno, mais recente, com seguimentos mais curtos, e uma parte relevante financiada pelas empresas que fabricam estes produtos. O flúor tem décadas de investigação independente e o respaldo das recomendações de saúde pública, incluindo a da DGS.

Perante a pergunta direta — uma pasta com 1450 ppm de flúor ou uma sem flúor com hidroxiapatite? — escolhemos a fluoretada, salvo indicação específica do médico dentista. Não por a alternativa ser má, mas porque a certeza não é a mesma.

A fórmula, sem complicar

Para um adulto sem problemas dentários específicos:

Pasta corrente + 1450 ppm de flúor + abrasividade moderada + sabor que tolere.

Não precisa de carvão ativado, ingredientes detox, dezenas de extratos vegetais, uma pasta caríssima, nem de uma pasta sem flúor só porque a embalagem parece mais saudável.

E há duas coisas que contam mais do que a marca que escolher:

  1. Escovar duas vezes por dia, cerca de dois minutos, sendo uma delas à noite antes de deitar.
  2. Não bochechar abundantemente com água logo a seguir. Cuspa o excesso e deixe ficar — bochechar remove o flúor que acabou de depositar nos dentes. É a correção mais fácil e das que mais rende.

Quando 1450 ppm não é o suficiente

Há uma exceção à fórmula acima, e é clínica. A mesma declaração da FDI recomenda que pessoas com risco elevado de cárie escovem duas vezes por dia com pastas de concentração bastante mais alta — entre 2500 e 5000 ppm. São pastas de venda condicionada, e a decisão de as usar não se toma no corredor do supermercado: depende do histórico de cáries, da saliva, da medicação, da dieta e do estado das gengivas.

A FDI sublinha também o papel do médico dentista na aplicação de produtos de concentração ainda mais elevada — géis, elixires e vernizes — uma a quatro vezes por ano, conforme o risco de cada pessoa. Se já teve várias cáries em poucos anos, é uma conversa a ter na consulta.

Onde a pasta de dentes deixa de chegar

Nenhuma pasta remove tártaro já formado. Nenhuma pasta trata uma cárie, uma gengiva que sangra há meses ou uma sensibilidade com causa estrutural. A escovagem controla a placa bacteriana — a partir do momento em que essa placa calcifica, só é removível em consultório.

É por isso que a escolha da pasta, por melhor que seja, não substitui o que se faz na clínica. Na Clínica Dr. António Bexiga fazemos higiene oral profissional nas duas unidades, Lisboa e Portela, com destartarização e polimento entre 45€ e 65€ — e, na mesma sessão, a avaliação que deteta cedo o que ainda se resolve de forma simples. Para a maioria dos adultos, uma consulta de higiene a cada seis meses é o intervalo indicado; o seu médico dentista ajusta-o conforme o risco de cárie e o estado das gengivas.

Se não vai ao dentista há mais de um ano, ou se anda a mudar de pasta à espera que alguma resolva um problema que não é de pasta, marque uma consulta de avaliação. Custa 25€, inclui exame clínico e ortopantomografia, e leva daqui um plano escrito — sem compromisso de o iniciar. Os restantes valores estão na tabela de preços.

Ficou com uma dúvida sobre o seu caso?

Deixe o contacto. A equipa liga de volta para esclarecer e, se fizer sentido, marcar uma avaliação.

Prefere que lhe liguemos?

2ª Opinião — envie o seu caso