Em Portugal, metade das crianças tem cáries antes de entrar para o 1.º ciclo. Não é inevitável — é prevenível. E a prevenção começa muito antes do que a maioria dos pais pensa.
Quando ir — a recomendação baseada em evidência
A Academia Americana de Odontopediatria (AAPD) — organismo de referência internacional — recomenda desde 2010 que a primeira consulta odontológica seja feita até ao 1.º aniversário da criança, ou até 6 meses após a erupção do primeiro dente de leite (o que ocorrer primeiro).
A Academia Europeia de Odontopediatria (EAPD) segue recomendação semelhante.
Em Portugal, as normas da DGS para saúde oral infantil orientam para vigilância nos Cuidados de Saúde Primários, mas a consulta especializada em odontopediatria pode — e em muitos casos deve — acontecer mais cedo do que os 3 anos frequentemente referidos como "primeira consulta".
Porquê tão cedo?
Não é para fazer tratamentos invasivos em bebés. É para:
- Avaliar o risco individual de cárie — dieta, higiene, factores genéticos
- Educar os pais sobre higiene oral infantil (a maioria não sabe a quantidade correcta de pasta fluoretada por idade)
- Estabelecer uma relação positiva com o dentista antes que haja qualquer problema
- Detectar precocemente hábitos prejudiciais (chucha, biberão nocturno) ou anomalias de desenvolvimento
A realidade portuguesa: metade das crianças com cáries aos 6 anos
O III Estudo Nacional de Prevalência das Doenças Orais (DGS) mostrou que 50% das crianças portuguesas de 6 anos têm pelo menos uma cárie. Em grupos socioeconómicos mais desfavorecidos, a prevalência é ainda superior.
A cárie dentária é a doença crónica mais prevalente na infância — à frente da asma e da diabetes. E é amplamente prevenível com fluoretos, selantes, higiene e dieta adequados, e consultas regulares.
O que acontece na primeira consulta
A primeira consulta num odontopediatra experiente é deliberadamente não invasiva:
- Conversa com os pais — história clínica, dieta, hábitos de higiene, hábitos deletérios (chucha, sucção do polegar)
- Conhecer o espaço — a criança explora a sala, os instrumentos são mostrados de forma lúdica
- Sentar na cadeira — frequentemente com o pai/mãe como "banco", a criança sentada no colo
- Exame "conta os dentes" — espelho simples, contar os dentes, avaliação da oclusão e mucosas
- Instrução de higiene oral — para os pais e, quando possível, para a criança
- Avaliação do risco de cárie — e definição da frequência de consultas seguintes
Para a maioria das crianças sem problemas, não há mais nada a fazer na primeira consulta. É literalmente só conhecer, examinar e educar.
Fluoretos na infância — o que a evidência diz
A pasta dentífrica fluoretada é a intervenção preventiva de cárie com melhor evidência em crianças. A dose depende da idade:
| Idade | Quantidade de pasta | Concentração |
|---|---|---|
| 0-3 anos | Grão de arroz (~0,1 mg) | 1000 ppm |
| 3-6 anos | Ervilha (~0,25 mg) | 1000-1500 ppm |
| 6+ anos | Fita de 1 cm | 1450 ppm (adultos) |
Uma revisão Cochrane (Walsh et al., 2019) — a mais abrangente sobre fluoretos e cárie — confirmou que pasta fluoretada reduz significativamente a cárie em crianças, com benefício dose-resposta dentro das concentrações seguras.
Não é necessário enxaguar após a escovagem — deixar a espuma é mais protector (o flúor actua no esmalte durante mais tempo). Ensinar a criança a cuspir sem enxaguar (a partir dos 3 anos, quando controla o reflexo de deglutição).
Selantes de fissura — para quando e para quem
Os selantes de fissura são resinas que selam os sulcos dos molares — as zonas mais propensas a cárie porque são difíceis de limpar com escova.
Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Dental Association (Ahovuo-Saloranta et al., 2017) mostrou que selantes de fissura reduzem a cárie em molares em 80% aos 2 anos e 60% aos 4 anos comparativamente a sem selante.
Indicados tipicamente:
- Primeiros molares definitivos: aos 6-7 anos, logo após erupção completa
- Segundos molares definitivos: aos 12-13 anos
- Dentes de leite com sulcos profundos em crianças de alto risco
Como prevenir a cárie de biberão
A cárie de biberão (cárie de infância precoce) é uma forma severa e rapidamente progressiva de cárie que afecta bebés e crianças pequenas, associada a exposição frequente e prolongada a líquidos açucarados — incluindo leite materno e fórmula.
O mecanismo: durante o sono, o fluxo salivar reduz-se drasticamente. Líquido açucarado fica em contacto estático com os dentes durante horas. As bactérias proliferam e produzem ácido sem tamponamento salivar adequado.
Prevenção:
- Não adormecer a criança com biberão de leite, sumo ou qualquer líquido açucarado
- Após cada mamada nocturna: limpar as gengivas e dentes com dedeira húmida
- Não mergulhar chupeta em mel ou açúcar
- Primeiro dente erupcionado = primeira escovagem
A transmissão bacteriana pai-filho
Um detalhe que muitos pais desconhecem: Streptococcus mutans — a principal bactéria cariogénica — não está presente ao nascimento. É transmitida pela saliva de cuidadores.
Comportamentos que transmitem bactérias cariogénicas para o bebé:
- Provar a comida com a mesma colher que dá ao bebé
- Limpar a chupeta com a própria boca antes de dar à criança
- Beijar na boca (com saliva)
Pais com cáries activas transmitem bactérias mais cariogénicas. Tratar as próprias cáries e manter boa higiene oral é, literalmente, uma forma de proteger a saúde oral dos filhos.
A primeira experiência moldará as seguintes
A investigação em psicologia do comportamento mostra que experiências dentárias precoces negativas são preditoras fortes de ansiedade dental na vida adulta — o que leva a evitamento de consultas e piores resultados de saúde oral ao longo da vida.
A primeira consulta deve ser uma experiência positiva, lúdica e sem dor. Isso é possível — e é parte do que distingue um bom odontopediatra. O investimento numa primeira experiência positiva tem retorno durante décadas.
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