Odontopediatria 28 Outubro 2024

Quando Levar a Criança ao Dentista pela Primeira Vez

Recomendação oficial: primeira consulta até ao 1.º aniversário. Em Portugal, metade das crianças tem cáries aos 6 anos. Quando ir, o que esperar, e como preparar a criança para uma experiência positiva.

Quando Levar a Criança ao Dentista pela Primeira Vez

Em Portugal, metade das crianças tem cáries antes de entrar para o 1.º ciclo. Não é inevitável — é prevenível. E a prevenção começa muito antes do que a maioria dos pais pensa.

Quando ir — a recomendação baseada em evidência

A Academia Americana de Odontopediatria (AAPD) — organismo de referência internacional — recomenda desde 2010 que a primeira consulta odontológica seja feita até ao 1.º aniversário da criança, ou até 6 meses após a erupção do primeiro dente de leite (o que ocorrer primeiro).

A Academia Europeia de Odontopediatria (EAPD) segue recomendação semelhante.

Em Portugal, as normas da DGS para saúde oral infantil orientam para vigilância nos Cuidados de Saúde Primários, mas a consulta especializada em odontopediatria pode — e em muitos casos deve — acontecer mais cedo do que os 3 anos frequentemente referidos como "primeira consulta".

Porquê tão cedo?

Não é para fazer tratamentos invasivos em bebés. É para:

  1. Avaliar o risco individual de cárie — dieta, higiene, factores genéticos
  2. Educar os pais sobre higiene oral infantil (a maioria não sabe a quantidade correcta de pasta fluoretada por idade)
  3. Estabelecer uma relação positiva com o dentista antes que haja qualquer problema
  4. Detectar precocemente hábitos prejudiciais (chucha, biberão nocturno) ou anomalias de desenvolvimento

A realidade portuguesa: metade das crianças com cáries aos 6 anos

O III Estudo Nacional de Prevalência das Doenças Orais (DGS) mostrou que 50% das crianças portuguesas de 6 anos têm pelo menos uma cárie. Em grupos socioeconómicos mais desfavorecidos, a prevalência é ainda superior.

A cárie dentária é a doença crónica mais prevalente na infância — à frente da asma e da diabetes. E é amplamente prevenível com fluoretos, selantes, higiene e dieta adequados, e consultas regulares.

O que acontece na primeira consulta

A primeira consulta num odontopediatra experiente é deliberadamente não invasiva:

  1. Conversa com os pais — história clínica, dieta, hábitos de higiene, hábitos deletérios (chucha, sucção do polegar)
  2. Conhecer o espaço — a criança explora a sala, os instrumentos são mostrados de forma lúdica
  3. Sentar na cadeira — frequentemente com o pai/mãe como "banco", a criança sentada no colo
  4. Exame "conta os dentes" — espelho simples, contar os dentes, avaliação da oclusão e mucosas
  5. Instrução de higiene oral — para os pais e, quando possível, para a criança
  6. Avaliação do risco de cárie — e definição da frequência de consultas seguintes

Para a maioria das crianças sem problemas, não há mais nada a fazer na primeira consulta. É literalmente só conhecer, examinar e educar.

Fluoretos na infância — o que a evidência diz

A pasta dentífrica fluoretada é a intervenção preventiva de cárie com melhor evidência em crianças. A dose depende da idade:

Idade Quantidade de pasta Concentração
0-3 anos Grão de arroz (~0,1 mg) 1000 ppm
3-6 anos Ervilha (~0,25 mg) 1000-1500 ppm
6+ anos Fita de 1 cm 1450 ppm (adultos)

Uma revisão Cochrane (Walsh et al., 2019) — a mais abrangente sobre fluoretos e cárie — confirmou que pasta fluoretada reduz significativamente a cárie em crianças, com benefício dose-resposta dentro das concentrações seguras.

Não é necessário enxaguar após a escovagem — deixar a espuma é mais protector (o flúor actua no esmalte durante mais tempo). Ensinar a criança a cuspir sem enxaguar (a partir dos 3 anos, quando controla o reflexo de deglutição).

Selantes de fissura — para quando e para quem

Os selantes de fissura são resinas que selam os sulcos dos molares — as zonas mais propensas a cárie porque são difíceis de limpar com escova.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Dental Association (Ahovuo-Saloranta et al., 2017) mostrou que selantes de fissura reduzem a cárie em molares em 80% aos 2 anos e 60% aos 4 anos comparativamente a sem selante.

Indicados tipicamente:

  • Primeiros molares definitivos: aos 6-7 anos, logo após erupção completa
  • Segundos molares definitivos: aos 12-13 anos
  • Dentes de leite com sulcos profundos em crianças de alto risco

Como prevenir a cárie de biberão

A cárie de biberão (cárie de infância precoce) é uma forma severa e rapidamente progressiva de cárie que afecta bebés e crianças pequenas, associada a exposição frequente e prolongada a líquidos açucarados — incluindo leite materno e fórmula.

O mecanismo: durante o sono, o fluxo salivar reduz-se drasticamente. Líquido açucarado fica em contacto estático com os dentes durante horas. As bactérias proliferam e produzem ácido sem tamponamento salivar adequado.

Prevenção:

  • Não adormecer a criança com biberão de leite, sumo ou qualquer líquido açucarado
  • Após cada mamada nocturna: limpar as gengivas e dentes com dedeira húmida
  • Não mergulhar chupeta em mel ou açúcar
  • Primeiro dente erupcionado = primeira escovagem

A transmissão bacteriana pai-filho

Um detalhe que muitos pais desconhecem: Streptococcus mutans — a principal bactéria cariogénica — não está presente ao nascimento. É transmitida pela saliva de cuidadores.

Comportamentos que transmitem bactérias cariogénicas para o bebé:

  • Provar a comida com a mesma colher que dá ao bebé
  • Limpar a chupeta com a própria boca antes de dar à criança
  • Beijar na boca (com saliva)

Pais com cáries activas transmitem bactérias mais cariogénicas. Tratar as próprias cáries e manter boa higiene oral é, literalmente, uma forma de proteger a saúde oral dos filhos.

A primeira experiência moldará as seguintes

A investigação em psicologia do comportamento mostra que experiências dentárias precoces negativas são preditoras fortes de ansiedade dental na vida adulta — o que leva a evitamento de consultas e piores resultados de saúde oral ao longo da vida.

A primeira consulta deve ser uma experiência positiva, lúdica e sem dor. Isso é possível — e é parte do que distingue um bom odontopediatra. O investimento numa primeira experiência positiva tem retorno durante décadas.

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