A dor de uma extração normal é pior no primeiro dia e melhor em cada dia seguinte. Quando faz o contrário — melhora dois dias e depois volta pior — o nome quase sempre é alveolite. É a complicação mais comum das extrações dentárias, não é uma infeção, e alivia com um tratamento que demora poucos minutos na cadeira. O problema é quase sempre esperar demasiado por ele.
O que é a alveolite
Depois de uma extração, o alvéolo — o buraco que o dente deixou no osso — enche-se de sangue e forma um coágulo. Esse coágulo não é um detalhe da cicatrização: é o penso biológico que protege o osso e as terminações nervosas enquanto o tecido novo se organiza por baixo.
Na alveolite seca — clinicamente, osteíte alveolar — esse coágulo desintegra-se ou perde-se antes de ter sido substituído. O osso fica exposto à saliva, ao ar, à temperatura e aos alimentos. Daí a intensidade da dor: não há inflamação massiva nem infeção a justificá-la, há osso a descoberto onde deveria haver um coágulo.
É a complicação mais frequente da cirurgia oral. A revisão Cochrane de 2022 sobre intervenções locais na osteíte alveolar situa a incidência entre 0,5% e 7% nas extrações de rotina e entre 1% e 37,5% na remoção cirúrgica de sisos inclusos — a amplitude dos intervalos reflete critérios de diagnóstico e populações diferentes entre estudos, mas a direção é consistente: quanto mais cirúrgica a extração, maior o risco.
Como distinguir da dor normal
Esta é a parte prática, e a razão pela qual a maioria das pessoas chega à clínica tarde: a dor de uma extração é esperada, por isso quem tem alveolite tende a assumir que está apenas a correr mal e a aguentar.
| Dor normal de extração | Alveolite | |
|---|---|---|
| Quando é máxima | Nas primeiras 24 horas | Agrava entre o 1.º e o 3.º dia, com pico habitual ao 3.º–5.º |
| Evolução | Diminui todos os dias | Melhora, e depois agrava |
| Tipo de dor | Latejante, localizada | Profunda, constante, irradia para o ouvido, têmpora ou pescoço |
| Analgésicos | Controlam bem | Aliviam pouco e por pouco tempo |
| Mau sabor / halitose | Não característico | Frequente |
| Febre e pus | Ausentes | Ausentes |
O critério mais fiável é o sentido da curva. Dor a diminuir de dia para dia, ainda que incómoda, é cicatrização. Dor a aumentar a partir do segundo ou terceiro dia, é sinal para telefonar.
Ao observar, vemos normalmente o alvéolo sem coágulo, com osso visível ou coberto por um tecido acinzentado, e muito sensível ao toque.
O que não é alveolite
Vale a pena separar dois quadros que se confundem, porque o tratamento é diferente.
Infeção do alvéolo. Se houver febre, inchaço a progredir, pus, gânglios dolorosos ou dificuldade em abrir a boca, já não estamos a falar de alveolite seca. Aí o antibiótico entra na conversa, e a avaliação é urgente. Sinais de inchaço a descer para o pescoço, dificuldade em engolir ou em respirar são motivo para ir ao serviço de urgência hospitalar, não para esperar por consulta — como explicamos no guia de urgências dentárias.
Dor de origem no dente vizinho. Uma extração difícil pode deixar o dente ao lado sensível durante algum tempo, e uma cárie profunda que já lá estava pode manifestar-se agora. É outra dor e outro tratamento — o artigo sobre dor de dentes ajuda a distinguir.
Quem tem mais risco
Os fatores estão bem documentados e alguns são controláveis:
- Tabaco. O mais importante dos modificáveis, e com efeito dose-dependente. Conta a sucção — que pode deslocar um coágulo instável — e conta o efeito do fumo na cicatrização. Ver tabaco e saúde oral.
- Extração de siso inferior, sobretudo quando é cirúrgica e demorada. O trauma cirúrgico é, por si, um fator de risco.
- Episódio anterior de alveolite. Quem já teve tem maior probabilidade de repetir.
- Contracetivos orais. A literatura associa consistentemente o estrogénio a maior incidência, por interferência com a fibrinólise.
- Higiene oral deficiente ou infeção ativa na altura da extração.
- Bochechos, cuspidelas e palhinhas nas primeiras 24 horas — todos criam pressão ou turbulência sobre um coágulo que ainda não está firme.
A idade e o sexo aparecem em várias séries, mas provavelmente como reflexo dos fatores acima e não como causa independente.
O tratamento: local, rápido, e sem antibiótico
O tratamento da alveolite é mecânico e sintomático, não antimicrobiano:
- Lavagem do alvéolo com soro fisiológico ou clorhexidina, para remover restos alimentares e tecido desvitalizado.
- Colocação de um curativo intra-alveolar, tipicamente com base em eugenol, que atua como barreira sobre o osso exposto e tem efeito analgésico local direto.
- Analgesia sistémica ajustada — normalmente um anti-inflamatório não esteroide, salvo contraindicação.
- Renovação do curativo a cada um a três dias, até o alvéolo deixar de doer.
O alívio é habitualmente rápido e marcado: é uma das poucas situações em medicina dentária em que o paciente entra com dor forte e sai sem ela. Convém, ainda assim, dizer o que a evidência suporta e o que não suporta — a revisão Cochrane citada acima conclui que a certeza da evidência sobre qual o melhor curativo é muito baixa, e que a antiga formulação do produto mais estudado deixou de estar disponível. Ou seja: o princípio do tratamento está estabelecido, o produto ideal não.
O que não funciona: tomar antibiótico à espera que passe. Não há infeção para tratar e a dor mantém-se — além de que o uso de antibiótico sem indicação é hoje desaconselhado de forma explícita na dor dentária aguda, como consta da guideline da American Dental Association sobre antibióticos na dor e inflamação de origem dentária, que recomenda tratamento dentário e analgesia em vez de antibiótico nos adultos imunocompetentes.
E o que pode piorar: aplicar óleo de cravinho puro diretamente na gengiva. O eugenol é de facto o princípio ativo dos curativos usados, mas em concentração e veículo controlados; aplicado puro, queima a mucosa.
Prevenção: o que depende de si e o que depende da clínica
Nas primeiras 24 horas, o objetivo é um só: não mexer no coágulo.
- Morder a compressa com pressão firme e contínua durante o tempo indicado.
- Não bochechar, não cuspir, não usar palhinha. Nas primeiras horas, nem sequer água.
- Alimentos moles e frios ou à temperatura ambiente. Nada quente no primeiro dia.
- Não fumar. Idealmente 72 horas, no mínimo 48.
- Não fazer esforço físico intenso.
A partir do segundo dia, retomar a higiene com cuidado — escovar os dentes vizinhos sem agredir a zona e, se indicado, fazer bochechos suaves de água morna com sal ou de clorhexidina.
Do lado clínico, a clorhexidina no perioperatório é a medida com melhor suporte: a revisão Cochrane atribui certeza moderada à conclusão de que os bochechos de clorhexidina a 0,12% e a 0,2% antes e depois da extração, e o gel de clorhexidina colocado no alvéolo, reduzem provavelmente a ocorrência de alveolite. É uma das raras recomendações preventivas nesta área que não assenta apenas em hábito clínico.
Quando telefonar
Não é preciso hesitar nem esperar pela consulta de controlo:
- Dor que aumenta a partir do segundo ou terceiro dia.
- Dor que os analgésicos prescritos deixaram de controlar.
- Mau sabor persistente ou sensação de alvéolo vazio.
- Qualquer febre, inchaço crescente ou dificuldade em abrir a boca — aqui, com urgência.
A alveolite não deixa sequelas. O que ela consome é uma semana de dor que não precisava de existir.
Como fazemos na clínica
Nas extrações e cirurgias, a informação pós-operatória é dada por escrito e explicada antes de sair — porque é nas primeiras 24 horas que se decide a maior parte deste risco, e a essa hora já não estamos ao seu lado.
Se tiver sido operado noutro lado e estiver com este quadro, também o vemos: o tratamento da alveolite não depende de quem fez a extração. Temos consultas nas duas unidades, em Lisboa e na Portela, e pode marcar consulta ou telefonar diretamente para a clínica mais próxima. Se a extração fizer parte de um plano mais alargado — reabilitação, implantes ou ortodontia —, explicamos o encadeamento e os prazos antes de começar.
Este tema tratado na clínica
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