Urgências 1 Dezembro 2025

Urgências Dentárias: O Que Fazer em Cada Situação

Um dente permanente avulsionado reimplantado em menos de 30 minutos tem 90% de taxa de sucesso. Passadas 2 horas, cai para menos de 5%. O que fazer — e o que não fazer — em cada urgência dentária.

Urgências Dentárias: O Que Fazer em Cada Situação

As urgências dentárias acontecem sempre no momento mais inoportuno. E o que se faz nas primeiras horas — ou nos primeiros minutos — pode fazer a diferença entre salvar ou perder um dente, entre uma complicação menor ou um problema grave.

Este guia aborda as urgências dentárias mais comuns com protocolos baseados em evidência clínica — o que fazer, o que não fazer, e quando ir ao hospital em vez de ao dentista.

Dente avulsionado (dente que saiu do lugar por trauma)

Este é o caso onde o tempo conta mais criticamente.

Um estudo clássico sobre avulsão dentária, referenciado nas guidelines da International Association of Dental Traumatology (IADT), mostrou que a taxa de sucesso do reimplante de um dente permanente avulsionado é:

  • Menos de 30 minutos: até 90% de sobrevivência a 5 anos
  • 30-60 minutos: 50-70%
  • Mais de 60 minutos (dente seco): menos de 30%
  • Mais de 2 horas: menos de 5%

O que fazer:

  1. Encontrar o dente — pegar pela coroa (a parte branca), nunca pela raiz
  2. NÃO limpar a raiz — as células do ligamento periodontal ainda na raiz são essenciais para o reimplante
  3. Se o dente estiver sujo, passar levemente por leite ou soro — nunca por água da torneira
  4. Guardar o dente em:
    • Leite (melhor opção acessível)
    • Soro fisiológico
    • Dentro da própria boca entre a bochecha e a gengiva (se o paciente for adulto e não houver risco de engolir)
    • Nunca em água simples — destrói as células da raiz rapidamente
  5. Ir ao dentista imediatamente — é literalmente uma urgência por minutos
  6. Se disponível: tentativa de reimplante no próprio local (colocar o dente de volta no alvéolo) antes de ir ao dentista aumenta as hipóteses

Dentes de leite avulsionados NÃO devem ser reimplantados — o reimplante pode lesar o dente definitivo que está a desenvolver-se por baixo.

Fractura dentária

Fractura do esmalte (lascou a ponta ou bordo)

Geralmente não é emergência. O dente pode estar sensível mas sem risco imediato. Contactar o dentista para consulta nos próximos dias. Guardar o fragmento se possível — pode ser colado.

Fractura com exposição da dentina (dor ao frio)

Mais urgente. A dentina exposta causa dor e precisa de cobertura. Consulta nas próximas 24-48 horas. Evitar alimentos frios e muito quentes.

Fractura com exposição do nervo (dor intensa e espontânea)

Urgência real. O nervo exposto causa dor intensa e corre risco de infecção. Consulta no próprio dia se possível. Analgésico (ibuprofeno 400mg) para controlo temporário da dor.

Fractura da raiz

Requer radiografia para diagnóstico. O dente pode não ter dor imediata mas está comprometido. Consulta urgente mas não emergência de horas.

Dor de dentes intensa (pulpite ou abcesso)

Pulpite

Inflamação do nervo — dor intensa, frequentemente pulsátil, que pode acordar à noite. O tratamento definitivo é o tratamento endodôntico (canal) ou extracção.

Para controlo temporário da dor:

  • Ibuprofeno 400-600mg (melhor evidência para dor dentária pulpar — superior ao paracetamol neste contexto)
  • Paracetamol 1g pode ser combinado com ibuprofeno em alternância
  • Nunca colocar aspirina directamente no dente ou gengiva — causa necrose química dos tecidos

Abcesso

Infecção bacteriana localizada na ponta da raiz (abcesso periapical) ou na gengiva (abcesso periodontal). Manifesta-se por dor intensa, sensação de pressão, dente "alto" ao fechar, por vezes inchaço visível.

O que fazer: consulta dentária urgente — o tratamento inclui drenagem do abcesso (alívio imediato de pressão e dor) e antibiótico se indicado.

Quando ir ao hospital em vez do dentista:

  • Inchaço que se estende ao pescoço, face ou pavimento da boca
  • Dificuldade em engolir ou respirar
  • Trismus severo (dificuldade em abrir a boca)
  • Febre alta (>38,5°C) associada
  • Deterioração do estado geral

Estes são sinais de angina de Ludwig ou celulite facial — complicações potencialmente fatais que requerem internamento hospitalar e antibioterapia endovenosa. Não esperar — ir ao hospital.

Dente partido ao meio (fractura cúspide ou raiz)

Uma cúspide que parte durante a mastigação (frequente em dentes com amálgama antiga ou sem coroa) é dolorosa mas raramente emergência imediata. Consulta nas 24-48 horas.

Se a fractura expôs o nervo (dor espontânea), tratar como urgência de dor.

Se o fragmento está preso nos tecidos moles (gengiva), consulta no próprio dia.

Coroa, ponte ou inlay que caiu

Não é emergência mas deve ser tratado em 24-48 horas — o dente preparado por baixo fica exposto e vulnerável.

Enquanto não vai ao dentista:

  • Guardar a peça em local seguro (numa caixinha ou saco plástico)
  • Em farmácias existe cimento temporário de venda livre para colar provisoriamente a peça
  • Evitar mastigar nesse lado
  • Não tentar colar com super-cola — contamina as superfícies e impossibilita a recimentação definitiva

Pericoronarite (infecção do siso a nascer)

Dor e inchaço na zona de trás da boca, frequentemente com limitação de abertura e por vezes febre ligeira. É a infecção dos tecidos que rodeiam um dente do siso a erupcionar parcialmente.

Consulta urgente mas não de horas (salvo se houver inchaço progressivo ou febre alta). O tratamento imediato é irrigação e antibiótico se indicado; o tratamento definitivo é a extracção do siso.

Traumatismo dentário sem fractura (dente ficou móvel após choque)

Dente que ficou mais móvel após trauma (queda, choque) sem fractura visível pode ter lesão ligamentar ou fractura da raiz não visível.

Radiografia urgente para avaliação. O tratamento varia desde simples controlo até ferulização (unir o dente aos vizinhos temporariamente).

O que levar à consulta de urgência

Para facilitar o diagnóstico e tratamento:

  • Medicação habitual (o dentista precisa de saber anticoagulantes, antidiabéticos, etc.)
  • Radiografias anteriores se disponíveis
  • O dente ou fragmento (em leite, soro ou saco plástico)
  • Informação sobre alergias a anestésicos ou antibióticos

Prevenção das urgências mais comuns

A maioria das urgências dentárias é prevenível:

  • Cáries profundas → pulpite/abcesso: consultas regulares de 6/6 meses permitem detectar e tratar antes de atingir o nervo
  • Fracturas por dentes fragilizados: dentes com amálgama antiga ou cáries extensas devem ser protegidos com coroa preventivamente
  • Traumatismos desportivos: protector bocal durante desporto de contacto — reduz drasticamente lesões dentárias

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