Dores de cabeça, dores de pescoço, cliques na mandíbula ao mastigar, dificuldade em abrir a boca completamente — são queixas que muitas pessoas têm sem saber que podem estar relacionadas com a articulação temporomandibular ou com a forma como os dentes encaixam.
A disfunção temporomandibular (DTM) é uma das condições mais prevalentes e menos reconhecidas em medicina dentária. Mas a sua relação com postura e cefaleia é mais nuançada do que frequentemente apresentado.
A prevalência real da DTM
Um artigo publicado em Cureus (Lekaviciute & Kriauciunas, 2024, DOI: 10.7759/cureus.54130) revisou a literatura sobre DTM e factores oclusais:
Segundo a investigação epidemiológica, até 50% dos adultos na população têm sintomas relacionados com DTM. No entanto, há uma distinção importante: ter sinais ou sintomas não é o mesmo que ter DTM clinicamente significativa que requer tratamento. A prevalência de DTM com impacto funcional significativo é estimada em 5-12% da população.
Os sintomas mais comuns incluem:
- Dor ou tensão nos músculos da mandíbula e face (mialgia)
- Dor na articulação temporomandibular (artralgia)
- Ruídos articulares (cliques, crepitações) ao abrir/fechar a boca
- Limitação da abertura bucal
- Cefaleia atribuída à DTM
- Dor referida ao pescoço e ombros
Má oclusão e postura cervical — a evidência de 2025
Revisão sistemática de 2025
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Medicine (Dipalma et al., Abril 2025, DOI: 10.3390/jcm14082626), da Universidade de Bari, analisou estudos publicados entre 2015 e 2025 sobre a relação entre maloclusões sagitais (Classe II e Classe III) e postura craniocervical:
Foram identificadas correlações significativas entre maloclusões sagitais e postura craniocervical, particularmente a curvatura cervical. Indivíduos com Classe II (mandíbula recuada) tendem a apresentar inclinação anterior da cabeça; indivíduos com Classe III (mandíbula avançada) têm padrões posturais distintos.
Meta-análise do PLOS ONE (2022)
A meta-análise de Peng et al. (PLOS ONE, 2022, DOI: 10.1371/journal.pone.0276156), da Universidade de Chongqing, combinou dados de múltiplos estudos sobre postura cervical e má oclusão:
Confirmou-se correlação estatisticamente significativa entre postura da cabeça/cervical e má oclusão — embora com variabilidade considerável entre estudos, atribuída a diferenças metodológicas e populacionais.
O que ainda não está resolvido
A direcção da causalidade é discutida: a má oclusão causa alterações posturais, ou padrões posturais crónicos influenciam o desenvolvimento da oclusão? A resposta é provavelmente bidirecional — com influência mútua durante o crescimento.
Má oclusão e disfunção temporomandibular
A revisão sistemática de Szyszka-Sommerfeld et al. (Frontiers in Neurology, 2025, DOI: 10.3389/fneur.2025.1550110), que avaliou especificamente o impacto da má oclusão na prevalência de DTM dolorosa em crianças e adolescentes, mostrou resultados diferenciados por tipo de má oclusão:
- Mordida aberta anterior: associada a maior sensibilidade dolorosa na ATM e músculos circundantes
- Overjet excessivo (dentes superiores muito à frente dos inferiores): associado a maior tendência para sensibilidade articular
- Relação molar sagital (Classe II): associada a maior prevalência de mialgia (dor muscular mastigatória)
Mas a conclusão mais honesta da revisão é que a relação entre má oclusão e DTM não é simples nem universal — há tipos de má oclusão com mais evidência de impacto, outros sem associação clara.
O que causa DTM — a visão actual
A investigação contemporânea adopta um modelo biopsicossocial para a DTM — reconhecendo que é multifactorial:
Factores físicos:
- Má oclusão (contribuição moderada, variável por tipo)
- Bruxismo (factor de risco maior)
- Trauma articular
- Hipermobilidade articular
Factores psicológicos:
- Stress e ansiedade (amplificadores de dor)
- Catastrofização
- Depressão
Factores sistémicos:
- Fibromialgia e outras síndromes de dor crónica generalizada
- Sexo feminino (prevalência superior — possível relação com estrogénios)
- Genética (susceptibilidade individual documentada)
Tratar a DTM apenas pela vertente oclusal, ignorando os factores psicológicos e comportamentais, é uma abordagem incompleta na maioria dos casos.
Dores de cabeça e mordida
A relação entre oclusão e cefaleia é a mais complexa de todas. Uma revisão sistemática publicada em Headache (2025) sobre intervenções ortodônticas e cefaleia em crianças/adolescentes não encontrou diferença estatisticamente significativa na prevalência de cefaleia entre quem fez tratamento ortodôntico e quem não fez (OR 1,22, IC: 0,78-1,92, p=0,38).
Isto sugere que a ortodontia, por si só, não é um tratamento eficaz para cefaleias na maioria dos casos — mesmo que exista má oclusão concomitante.
As cefaleias mais prevalentes — tensionais e enxaqueca — têm causas primárias que raramente são de origem oclusal. A cefaleia atribuível especificamente à DTM é um diagnóstico específico com critérios definidos.
Quando faz sentido avaliar a oclusão perante DTM ou cefaleias
Situações em que a avaliação dentária é pertinente:
- Dor na ATM ou músculos mastigatórios com início concomitante a alteração da mordida
- Cliques ou limitação de abertura bucal acompanhados de dor
- Desgaste dentário evidente associado a bruxismo + cefaleia matinal
- Cefaleia que piora consistentemente durante ou após mastigação
- Histórico de trauma mandibular
Situações onde a causa oclusal é improvável:
- Cefaleia unilateral pulsátil com náusea (mais consistente com enxaqueca)
- Cefaleia de tensão crónica sem sintomas articulares ou musculares mastigatórios
- Cefaleia com características neurológicas
Abordagem terapêutica baseada em evidência
Para DTM clinicamente significativa, a abordagem com melhor evidência combina:
- Goteira oclusal (para bruxismo/parafunção) — evidência moderada para redução de dor
- Fisioterapia — mobilização articular, exercícios musculares, postura cervical
- Técnicas de gestão do stress — biofeedback, relaxamento progressivo
- Farmacologia — AINEs, relaxantes musculares (curto prazo), toxina botulínica nos masseteres em casos severos
- Terapia cognitivo-comportamental — especialmente em DTM com componente psicológica significativa
A cirurgia articular é reservada para casos refractários — uma minoria dentro de uma minoria.
A mensagem mais importante: DTM com sintomas significativos merece avaliação por dentista com formação em medicina oral ou dor orofacial — não auto-diagnóstico nem tratamentos não fundamentados.
Este tema tratado na clínica
Se quiser passar da informação ao caso concreto:
Ficou com uma dúvida sobre o seu caso?
Deixe o contacto. A equipa liga de volta para esclarecer e, se fizer sentido, marcar uma avaliação.