Saúde Oral 18 Agosto 2025

Má Oclusão, Postura e Dores de Cabeça: O Que a Ciência Diz

Até 50% dos adultos têm pelo menos um sintoma de disfunção da articulação temporomandibular. Uma revisão sistemática de 2025 confirma correlação entre má oclusão e postura cervical. Mas a relação causa-efeito é mais complexa do que parece.

Má Oclusão, Postura e Dores de Cabeça: O Que a Ciência Diz

Dores de cabeça, dores de pescoço, cliques na mandíbula ao mastigar, dificuldade em abrir a boca completamente — são queixas que muitas pessoas têm sem saber que podem estar relacionadas com a articulação temporomandibular ou com a forma como os dentes encaixam.

A disfunção temporomandibular (DTM) é uma das condições mais prevalentes e menos reconhecidas em medicina dentária. Mas a sua relação com postura e cefaleia é mais nuançada do que frequentemente apresentado.

A prevalência real da DTM

Um artigo publicado em Cureus (Lekaviciute & Kriauciunas, 2024, DOI: 10.7759/cureus.54130) revisou a literatura sobre DTM e factores oclusais:

Segundo a investigação epidemiológica, até 50% dos adultos na população têm sintomas relacionados com DTM. No entanto, há uma distinção importante: ter sinais ou sintomas não é o mesmo que ter DTM clinicamente significativa que requer tratamento. A prevalência de DTM com impacto funcional significativo é estimada em 5-12% da população.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • Dor ou tensão nos músculos da mandíbula e face (mialgia)
  • Dor na articulação temporomandibular (artralgia)
  • Ruídos articulares (cliques, crepitações) ao abrir/fechar a boca
  • Limitação da abertura bucal
  • Cefaleia atribuída à DTM
  • Dor referida ao pescoço e ombros

Má oclusão e postura cervical — a evidência de 2025

Revisão sistemática de 2025

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Medicine (Dipalma et al., Abril 2025, DOI: 10.3390/jcm14082626), da Universidade de Bari, analisou estudos publicados entre 2015 e 2025 sobre a relação entre maloclusões sagitais (Classe II e Classe III) e postura craniocervical:

Foram identificadas correlações significativas entre maloclusões sagitais e postura craniocervical, particularmente a curvatura cervical. Indivíduos com Classe II (mandíbula recuada) tendem a apresentar inclinação anterior da cabeça; indivíduos com Classe III (mandíbula avançada) têm padrões posturais distintos.

Meta-análise do PLOS ONE (2022)

A meta-análise de Peng et al. (PLOS ONE, 2022, DOI: 10.1371/journal.pone.0276156), da Universidade de Chongqing, combinou dados de múltiplos estudos sobre postura cervical e má oclusão:

Confirmou-se correlação estatisticamente significativa entre postura da cabeça/cervical e má oclusão — embora com variabilidade considerável entre estudos, atribuída a diferenças metodológicas e populacionais.

O que ainda não está resolvido

A direcção da causalidade é discutida: a má oclusão causa alterações posturais, ou padrões posturais crónicos influenciam o desenvolvimento da oclusão? A resposta é provavelmente bidirecional — com influência mútua durante o crescimento.

Má oclusão e disfunção temporomandibular

A revisão sistemática de Szyszka-Sommerfeld et al. (Frontiers in Neurology, 2025, DOI: 10.3389/fneur.2025.1550110), que avaliou especificamente o impacto da má oclusão na prevalência de DTM dolorosa em crianças e adolescentes, mostrou resultados diferenciados por tipo de má oclusão:

  • Mordida aberta anterior: associada a maior sensibilidade dolorosa na ATM e músculos circundantes
  • Overjet excessivo (dentes superiores muito à frente dos inferiores): associado a maior tendência para sensibilidade articular
  • Relação molar sagital (Classe II): associada a maior prevalência de mialgia (dor muscular mastigatória)

Mas a conclusão mais honesta da revisão é que a relação entre má oclusão e DTM não é simples nem universal — há tipos de má oclusão com mais evidência de impacto, outros sem associação clara.

O que causa DTM — a visão actual

A investigação contemporânea adopta um modelo biopsicossocial para a DTM — reconhecendo que é multifactorial:

Factores físicos:

  • Má oclusão (contribuição moderada, variável por tipo)
  • Bruxismo (factor de risco maior)
  • Trauma articular
  • Hipermobilidade articular

Factores psicológicos:

  • Stress e ansiedade (amplificadores de dor)
  • Catastrofização
  • Depressão

Factores sistémicos:

  • Fibromialgia e outras síndromes de dor crónica generalizada
  • Sexo feminino (prevalência superior — possível relação com estrogénios)
  • Genética (susceptibilidade individual documentada)

Tratar a DTM apenas pela vertente oclusal, ignorando os factores psicológicos e comportamentais, é uma abordagem incompleta na maioria dos casos.

Dores de cabeça e mordida

A relação entre oclusão e cefaleia é a mais complexa de todas. Uma revisão sistemática publicada em Headache (2025) sobre intervenções ortodônticas e cefaleia em crianças/adolescentes não encontrou diferença estatisticamente significativa na prevalência de cefaleia entre quem fez tratamento ortodôntico e quem não fez (OR 1,22, IC: 0,78-1,92, p=0,38).

Isto sugere que a ortodontia, por si só, não é um tratamento eficaz para cefaleias na maioria dos casos — mesmo que exista má oclusão concomitante.

As cefaleias mais prevalentes — tensionais e enxaqueca — têm causas primárias que raramente são de origem oclusal. A cefaleia atribuível especificamente à DTM é um diagnóstico específico com critérios definidos.

Quando faz sentido avaliar a oclusão perante DTM ou cefaleias

Situações em que a avaliação dentária é pertinente:

  • Dor na ATM ou músculos mastigatórios com início concomitante a alteração da mordida
  • Cliques ou limitação de abertura bucal acompanhados de dor
  • Desgaste dentário evidente associado a bruxismo + cefaleia matinal
  • Cefaleia que piora consistentemente durante ou após mastigação
  • Histórico de trauma mandibular

Situações onde a causa oclusal é improvável:

  • Cefaleia unilateral pulsátil com náusea (mais consistente com enxaqueca)
  • Cefaleia de tensão crónica sem sintomas articulares ou musculares mastigatórios
  • Cefaleia com características neurológicas

Abordagem terapêutica baseada em evidência

Para DTM clinicamente significativa, a abordagem com melhor evidência combina:

  1. Goteira oclusal (para bruxismo/parafunção) — evidência moderada para redução de dor
  2. Fisioterapia — mobilização articular, exercícios musculares, postura cervical
  3. Técnicas de gestão do stress — biofeedback, relaxamento progressivo
  4. Farmacologia — AINEs, relaxantes musculares (curto prazo), toxina botulínica nos masseteres em casos severos
  5. Terapia cognitivo-comportamental — especialmente em DTM com componente psicológica significativa

A cirurgia articular é reservada para casos refractários — uma minoria dentro de uma minoria.

A mensagem mais importante: DTM com sintomas significativos merece avaliação por dentista com formação em medicina oral ou dor orofacial — não auto-diagnóstico nem tratamentos não fundamentados.

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