Prevenção 16 Junho 2025

Alimentação e Saúde Oral: O Que a Ciência Sabe

A dieta mediterrânica está associada a 30% menos doença periodontal. Refrigerantes dietéticos eroderm o esmalte tanto quanto os normais. Vitamina D deficiente aumenta o risco de periodontite. O que a ciência sabe sobre alimentação e dentes.

Alimentação e Saúde Oral: O Que a Ciência Sabe

A relação entre alimentação e saúde oral vai muito além do açúcar e das cáries. A dieta influencia o risco de doença periodontal, a qualidade do esmalte, a resposta inflamatória gengival e até a microbiota oral. E algumas das associações mais fortes contradizem o senso comum.

Dieta mediterrânica e saúde periodontal

Uma revisão sistemática publicada em Nutrients (Machado et al., 2023) avaliou a associação entre padrão alimentar mediterrânico e saúde periodontal:

Indivíduos com maior adesão à dieta mediterrânica têm prevalência significativamente menor de doença periodontal — com redução de risco estimada em cerca de 30% em estudos observacionais de alta qualidade. Os mecanismos propostos incluem o efeito anti-inflamatório dos ácidos gordos ómega-3 (peixe gordo, azeite), antioxidantes (vegetais, fruta, azeite) e fibra (legumes, cereais integrais).

A dieta mediterrânica não é apenas boa para o coração — é boa para as gengivas.

O paradoxo dos refrigerantes "diet"

Um equívoco muito comum: refrigerantes sem açúcar são "seguros para os dentes".

Para a cárie, sim — sem açúcar fermentável, as bactérias têm menos substrato.

Para a erosão do esmalte, não. O pH de um refrigerante de cola diet (~3,2) é idêntico ao do normal. O ácido fosfórico erode o esmalte independentemente da presença de açúcar.

Um estudo publicado no British Dental Journal (zero, 2014) mediu a erosão causada por 48 bebidas diferentes em esmalte e dentina in vitro. Os refrigerantes de cola diet causaram erosão comparável aos normais. Bebidas energéticas e águas com sabor (naturalmente ácidas) foram igualmente erosivas.

A frequência importa mais do que a quantidade: beber um refrigerante diet à refeição (exposição curta, saliva tampona rapidamente) é muito diferente de sorber ao longo de 3 horas.

Alimentos que protegem activamente os dentes

Queijo e laticínios

Múltiplos mecanismos de protecção simultâneos:

  • Estímulo salivar — mastigação de alimentos sólidos como o queijo estimula o fluxo salivar (sistema de defesa mais importante)
  • Cálcio e fosfato — promovem remineralização do esmalte desmineralizado
  • Caseína — proteína que forma película protectora na superfície dentária
  • pH básico — neutraliza ácidos residuais após refeição

Um estudo randomizado controlado (Journal of the American Dental Association, 2013) mostrou que 5g de queijo após consumo de Coca-Cola neutralizavam significativamente a queda de pH da placa — superior ao iogurte e ao leite.

Chá verde sem açúcar

Os polifenóis do chá verde — especialmente as catequinas (EGCG) — têm actividade antibacteriana documentada. Uma revisão em PLoS ONE (2021) mostrou que o consumo regular de chá verde está associado a menor profundidade de bolsas periodontais e menor prevalência de gengivite.

Atenção: com açúcar adicionado, o benefício é anulado pela carga glicémica.

Frutos secos e alimentos fibrosos

Frutos secos (nozes, amêndoas) e vegetais fibrosos crus (cenoura, aipo) requerem mastigação vigorosa, estimulando o fluxo salivar. Adicionalmente, o acto de mastigar tem um efeito mecânico de limpeza superficial.

Água — o mais subestimado

Beber água ao longo do dia, especialmente após refeições, diluí os açúcares residuais e ajuda a manter o pH oral neutro. Água fluoretada (onde disponível) tem benefício adicional documentado.

Micronutrientes com impacto na saúde oral

Vitamina D

Uma meta-análise publicada em Nutrients (Apatzidou et al., 2020) mostrou associação entre deficiência de vitamina D (25-OH-D < 20 ng/mL) e maior prevalência de doença periodontal e cáries.

A vitamina D regula a resposta imune (incluindo a inflamatória), é essencial para a absorção de cálcio e mineralização óssea, e tem efeito anti-inflamatório directo no tecido gengival.

Portugal tem paradoxalmente prevalência significativa de deficiência de vitamina D — especialmente em trabalhadores de interior, pessoas idosas e pessoas com obesidade. Um doseamento sérico simples permite identificar e corrigir a deficiência.

Vitamina C

A vitamina C (ácido ascórbico) é essencial para a síntese de colagénio — estrutura fundamental do ligamento periodontal e do tecido gengival. Deficiência severa causa escorbuto (doença histórica dos marinheiros) — caracterizada por gengivas hemorrágicas e perda de dentes.

Em Portugal, a deficiência severa é rara. Mas níveis subóptimos (não escúrbicos) estão associados a maior susceptibilidade a inflamação gengival — especialmente em fumadores, onde a vitamina C é oxidada mais rapidamente.

Cálcio e fósforo

A mineralização do esmalte e do osso alveolar requer disponibilidade adequada de cálcio e fósforo. Dietas muito pobres em laticínios sem suplementação adequada — especialmente em crianças e adolescentes em crescimento — podem comprometer a qualidade do esmalte.

O que a evidência diz sobre alimentos específicos

Alimento Efeito na cárie Efeito na periodontite Efeito no esmalte
Açúcar (frequência alta) ↑↑ muito prejudicial ↑ prejudicial Neutro
Refrigerantes (incluindo diet) ↑ diet: neutro; normal: prejudicial ↑ pH ácido: ligeiro ↑↑ erosão
Sumos naturais de fruta ↑ prejudicial Neutro ↑ erosão (ácido)
Queijo ↓ protector ↓ protector ↓ protector (remineraliza)
Chá verde (sem açúcar) ↓ protector ↓↓ protector Neutro (ligeiro manchamento)
Água Neutro Neutro Neutro/protector
Vegetais folhosos ↓ ligeiro ↓ protector Neutro
Peixe gordo (ómega-3) Neutro ↓↓ protector Neutro

A lição mais importante da ciência

A alimentação é um factor de risco modificável tanto para cárie como para doença periodontal — mas os mecanismos são distintos:

Para cárie: a frequência de exposição a açúcares fermentáveis é o principal determinante.

Para doença periodontal: o padrão alimentar global (pro-inflamatório vs anti-inflamatório) tem mais impacto do que alimentos isolados.

Adicionalmente, a investigação mais recente aponta para o microbioma oral como elo de ligação: dietas com alta diversidade de fibras alimentares e polifenóis promovem um microbioma oral mais equilibrado e menos patogénico — independentemente do efeito directo dos açúcares.

Consultas regulares ao dentista permitem identificar precocemente padrões de erosão ou cárie que podem indicar hábitos alimentares específicos — e intervir antes que o dano seja irreversível.

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