A periodontite é a doença oral mais prevalente e mais subestimada em Portugal. Afecta quase metade dos adultos, é a principal causa de perda de dentes — não a cárie — e progride durante anos de forma silenciosa antes de causar sintomas evidentes.
O pior: é irreversível. O osso destruído não regenera espontaneamente. Mas é controlável — com tratamento e manutenção adequados, a maioria dos pacientes mantém os seus dentes por décadas.
A prevalência em Portugal — os dados
O III Estudo Nacional de Prevalência das Doenças Orais (DGS, 2015) mostrou que aproximadamente 45% dos adultos portugueses têm periodontite em algum grau, com 11% em forma severa (estadio III-IV).
Dados globais do Global Burden of Disease confirmam que a periodontite severa afecta cerca de 11% da população mundial — sendo a 6.ª condição mais prevalente do mundo.
A maioria não sabe que tem.
Gengivite vs. Periodontite — a distinção crítica
Gengivite é a inflamação limitada às gengivas, sem destruição de osso ou tecido conjuntivo. É completamente reversível com destartarização e melhoria da higiene.
Periodontite é a progressão da gengivite não tratada para o osso de suporte. Causa destruição permanente e irreversível do ligamento periodontal e do osso alveolar. Não reverte — mas pode ser travada.
A distinção é crítica porque determina o prognóstico: tratar gengivite = recuperação completa; tratar periodontite = controlo da progressão.
Os estadios da periodontite — classificação de 2018
O sistema de classificação de 2018 (Papapanou et al., Journal of Periodontology, 2018 — a classificação internacional vigente) divide a periodontite em:
Estadio I — Inicial Perda de osso leve (≤15% na radiografia), bolsas periodontais de 4mm, sem perda de dentes por periodontite. Boa resposta ao tratamento.
Estadio II — Moderado Perda de osso moderada (15-33%), bolsas de 5mm, sem perda de dentes por periodontite. Boa resposta ao tratamento.
Estadio III — Severo com potencial para mais perda Perda de osso >33%, bolsas ≥6mm, perda de menos de 4 dentes por periodontite, possível mobilidade. Tratamento mais complexo.
Estadio IV — Severo com perda mastigatória estabelecida Perda de 5 ou mais dentes por periodontite, mobilidade severa, colapso mastigatório. Tratamento multidisciplinar necessário (periodontal + protético).
A classificação inclui também Grau (A, B, C) — que avalia a velocidade de progressão e factores de risco (tabaco, diabetes). Um paciente Grau C (progressão rápida) necessita de manutenção mais agressiva.
O que causa periodontite
A causa primária é a acumulação de placa bacteriana subgengival — especialmente bactérias anaeróbias gram-negativas como Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsythia e Treponema denticola (o "complexo vermelho" de Socransky).
Mas a susceptibilidade individual é determinante. Dois pacientes com higiene oral idêntica podem ter progressão muito diferente — genética, resposta imune, e factores de risco modulam o curso da doença.
Factores de risco modificáveis:
- Tabaco — o mais importante; reduz o fluxo sanguíneo gengival, compromete a resposta imune, mascara o sangramento (falsa sensação de saúde), aumenta a severidade e dificulta o tratamento
- Diabetes mal controlada — relação bidirecional (ver artigo sobre diabetes e saúde oral)
- Stress crónico — via imunossupressão e comportamentos associados (menos higiene, mais tabaco)
- Obesidade — associada a perfil inflamatório sistémico pro-periodontite
Factores não modificáveis:
- Genética — polimorfismos em genes de resposta inflamatória (IL-1, TNF-α) aumentam susceptibilidade
- Anatomia dentária — tronco radicular curto, furca radicular próxima da margem gengival
O tratamento periodontal — o que inclui
Fase 1 — Tratamento não cirúrgico (a maioria dos casos)
Destartarização e alisamento radicular (DAR): Remoção mecânica do biofilme e cálculo subgengival com curetas e/ou instrumentos ultrassónicos. Realizado sob anestesia local, por quadrantes (geralmente 4 sessões de 1h cada).
O alisamento radicular cria uma superfície radicular lisa e biologicamente compatível que permite o reattachment do tecido conjuntivo.
Uma revisão sistemática publicada em Journal of Clinical Periodontology (Sanz et al., 2020 — guidelines europeus) confirma que a destartarização e alisamento radicular é a intervenção com melhor evidência para estadios I-III, com reduções de bolsa de 1-2mm em média e estabilização da maioria dos casos.
Antibióticos adjuvantes: Em casos específicos (bactérias resistentes, periodontite agressiva), antibióticos sistémicos (amoxicilina + metronidazol) ou locais (gel de doxiciclina) podem ser usados em adjuvância ao tratamento mecânico. Não substituem a DAR.
Fase 2 — Reavaliação (6-8 semanas após fase 1)
O dentista sonda novamente toda a boca para avaliar a resposta. Bolsas que reduziram para ≤4mm com ausência de sangramento são consideradas controladas. Bolsas residuais ≥6mm com sangramento indicam necessidade de tratamento adicional.
Fase 3 — Cirurgia periodontal (casos seleccionados)
Para bolsas residuais profundas que não respondem ao tratamento não cirúrgico, a cirurgia periodontal permite:
- Acesso directo a zonas profundas inacessíveis às curetas
- Regeneração óssea guiada (membranas + enxertos) em defeitos ósseos verticais
- Cirurgia mucogengival (enxertos gengivais) para cobertura de recessões radiculares
A regeneração óssea pode recuperar osso perdido em defeitos verticais específicos — com membranas de colagénio e substitutos ósseos. Não regenera osso em defeitos horizontais generalizados.
Fase 4 — Manutenção periodontal (permanente)
A periodontite é uma doença crónica. Sem manutenção regular, recidiva.
O protocolo após tratamento activo é manutenção periodontal a cada 3-4 meses — não 6 meses como na população geral. Inclui: sondagem completa, radiografias de controlo periódicas, destartarização supra e subgengival, instrução de higiene.
Estudos de seguimento de 10-20 anos mostram que pacientes em manutenção periodontal regular mantêm os seus dentes a taxas muito superiores aos que abandonam o protocolo.
O que acontece se não tratar
A progressão sem tratamento:
- Aprofundamento progressivo das bolsas
- Reabsorção óssea contínua — às vezes rápida, às vezes lenta
- Mobilidade dentária crescente
- Abcessos periodontais recorrentes
- Perda de dentes
A progressão não é linear — há períodos de actividade e remissão. Mas a tendência a longo prazo sem tratamento é de perda progressiva de osso e, eventualmente, de dentes.
Adicionalmente, como descrito noutros artigos, a periodontite não tratada está associada a pior controlo da diabetes, maior risco cardiovascular e, possivelmente, declínio cognitivo.
Higiene oral em casa com periodontite
Após tratamento, a higiene oral em casa é diferente da higiene preventiva standard:
- Escova eléctrica — evidência de maior eficácia na remoção de placa comparativamente à escova manual
- Escovilhões interdentários — obrigatórios; o fio dentário convencional é insuficiente para bolsas profundas
- Irrigador oral — complemento útil para higiene subgengival
- Colutório com clorhexidina — em períodos de actividade, por ciclos curtos (não uso crónico)
A escovagem da língua e o controlo do tabaco são igualmente importantes para reduzir a carga bacteriana total.
Este tema tratado na clínica
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