Periodontologia 5 Maio 2025

Periodontite: Estágios, Tratamento e o Que Acontece se Não Tratar

45% dos adultos portugueses têm periodontite — 11% em forma severa. É a principal causa de perda de dentes em adultos. O osso perdido não volta, mas a progressão pode ser travada. O que a ciência diz sobre tratamento e manutenção.

Periodontite: Estágios, Tratamento e o Que Acontece se Não Tratar

A periodontite é a doença oral mais prevalente e mais subestimada em Portugal. Afecta quase metade dos adultos, é a principal causa de perda de dentes — não a cárie — e progride durante anos de forma silenciosa antes de causar sintomas evidentes.

O pior: é irreversível. O osso destruído não regenera espontaneamente. Mas é controlável — com tratamento e manutenção adequados, a maioria dos pacientes mantém os seus dentes por décadas.

A prevalência em Portugal — os dados

O III Estudo Nacional de Prevalência das Doenças Orais (DGS, 2015) mostrou que aproximadamente 45% dos adultos portugueses têm periodontite em algum grau, com 11% em forma severa (estadio III-IV).

Dados globais do Global Burden of Disease confirmam que a periodontite severa afecta cerca de 11% da população mundial — sendo a 6.ª condição mais prevalente do mundo.

A maioria não sabe que tem.

Gengivite vs. Periodontite — a distinção crítica

Gengivite é a inflamação limitada às gengivas, sem destruição de osso ou tecido conjuntivo. É completamente reversível com destartarização e melhoria da higiene.

Periodontite é a progressão da gengivite não tratada para o osso de suporte. Causa destruição permanente e irreversível do ligamento periodontal e do osso alveolar. Não reverte — mas pode ser travada.

A distinção é crítica porque determina o prognóstico: tratar gengivite = recuperação completa; tratar periodontite = controlo da progressão.

Os estadios da periodontite — classificação de 2018

O sistema de classificação de 2018 (Papapanou et al., Journal of Periodontology, 2018 — a classificação internacional vigente) divide a periodontite em:

Estadio I — Inicial Perda de osso leve (≤15% na radiografia), bolsas periodontais de 4mm, sem perda de dentes por periodontite. Boa resposta ao tratamento.

Estadio II — Moderado Perda de osso moderada (15-33%), bolsas de 5mm, sem perda de dentes por periodontite. Boa resposta ao tratamento.

Estadio III — Severo com potencial para mais perda Perda de osso >33%, bolsas ≥6mm, perda de menos de 4 dentes por periodontite, possível mobilidade. Tratamento mais complexo.

Estadio IV — Severo com perda mastigatória estabelecida Perda de 5 ou mais dentes por periodontite, mobilidade severa, colapso mastigatório. Tratamento multidisciplinar necessário (periodontal + protético).

A classificação inclui também Grau (A, B, C) — que avalia a velocidade de progressão e factores de risco (tabaco, diabetes). Um paciente Grau C (progressão rápida) necessita de manutenção mais agressiva.

O que causa periodontite

A causa primária é a acumulação de placa bacteriana subgengival — especialmente bactérias anaeróbias gram-negativas como Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsythia e Treponema denticola (o "complexo vermelho" de Socransky).

Mas a susceptibilidade individual é determinante. Dois pacientes com higiene oral idêntica podem ter progressão muito diferente — genética, resposta imune, e factores de risco modulam o curso da doença.

Factores de risco modificáveis:

  • Tabaco — o mais importante; reduz o fluxo sanguíneo gengival, compromete a resposta imune, mascara o sangramento (falsa sensação de saúde), aumenta a severidade e dificulta o tratamento
  • Diabetes mal controlada — relação bidirecional (ver artigo sobre diabetes e saúde oral)
  • Stress crónico — via imunossupressão e comportamentos associados (menos higiene, mais tabaco)
  • Obesidade — associada a perfil inflamatório sistémico pro-periodontite

Factores não modificáveis:

  • Genética — polimorfismos em genes de resposta inflamatória (IL-1, TNF-α) aumentam susceptibilidade
  • Anatomia dentária — tronco radicular curto, furca radicular próxima da margem gengival

O tratamento periodontal — o que inclui

Fase 1 — Tratamento não cirúrgico (a maioria dos casos)

Destartarização e alisamento radicular (DAR): Remoção mecânica do biofilme e cálculo subgengival com curetas e/ou instrumentos ultrassónicos. Realizado sob anestesia local, por quadrantes (geralmente 4 sessões de 1h cada).

O alisamento radicular cria uma superfície radicular lisa e biologicamente compatível que permite o reattachment do tecido conjuntivo.

Uma revisão sistemática publicada em Journal of Clinical Periodontology (Sanz et al., 2020 — guidelines europeus) confirma que a destartarização e alisamento radicular é a intervenção com melhor evidência para estadios I-III, com reduções de bolsa de 1-2mm em média e estabilização da maioria dos casos.

Antibióticos adjuvantes: Em casos específicos (bactérias resistentes, periodontite agressiva), antibióticos sistémicos (amoxicilina + metronidazol) ou locais (gel de doxiciclina) podem ser usados em adjuvância ao tratamento mecânico. Não substituem a DAR.

Fase 2 — Reavaliação (6-8 semanas após fase 1)

O dentista sonda novamente toda a boca para avaliar a resposta. Bolsas que reduziram para ≤4mm com ausência de sangramento são consideradas controladas. Bolsas residuais ≥6mm com sangramento indicam necessidade de tratamento adicional.

Fase 3 — Cirurgia periodontal (casos seleccionados)

Para bolsas residuais profundas que não respondem ao tratamento não cirúrgico, a cirurgia periodontal permite:

  • Acesso directo a zonas profundas inacessíveis às curetas
  • Regeneração óssea guiada (membranas + enxertos) em defeitos ósseos verticais
  • Cirurgia mucogengival (enxertos gengivais) para cobertura de recessões radiculares

A regeneração óssea pode recuperar osso perdido em defeitos verticais específicos — com membranas de colagénio e substitutos ósseos. Não regenera osso em defeitos horizontais generalizados.

Fase 4 — Manutenção periodontal (permanente)

A periodontite é uma doença crónica. Sem manutenção regular, recidiva.

O protocolo após tratamento activo é manutenção periodontal a cada 3-4 meses — não 6 meses como na população geral. Inclui: sondagem completa, radiografias de controlo periódicas, destartarização supra e subgengival, instrução de higiene.

Estudos de seguimento de 10-20 anos mostram que pacientes em manutenção periodontal regular mantêm os seus dentes a taxas muito superiores aos que abandonam o protocolo.

O que acontece se não tratar

A progressão sem tratamento:

  • Aprofundamento progressivo das bolsas
  • Reabsorção óssea contínua — às vezes rápida, às vezes lenta
  • Mobilidade dentária crescente
  • Abcessos periodontais recorrentes
  • Perda de dentes

A progressão não é linear — há períodos de actividade e remissão. Mas a tendência a longo prazo sem tratamento é de perda progressiva de osso e, eventualmente, de dentes.

Adicionalmente, como descrito noutros artigos, a periodontite não tratada está associada a pior controlo da diabetes, maior risco cardiovascular e, possivelmente, declínio cognitivo.

Higiene oral em casa com periodontite

Após tratamento, a higiene oral em casa é diferente da higiene preventiva standard:

  • Escova eléctrica — evidência de maior eficácia na remoção de placa comparativamente à escova manual
  • Escovilhões interdentários — obrigatórios; o fio dentário convencional é insuficiente para bolsas profundas
  • Irrigador oral — complemento útil para higiene subgengival
  • Colutório com clorhexidina — em períodos de actividade, por ciclos curtos (não uso crónico)

A escovagem da língua e o controlo do tabaco são igualmente importantes para reduzir a carga bacteriana total.

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